São 84 minutos perdidos que nunca mais na vida vamos recuperar.

Vendido como uma nova comédia dos argumentistas de A Ressaca (Jon Lucas e Scott Moore), Jexi é um reflexo dos sinais dos tempos. Se antigamente as comédias espalhafatosas apresentavam adolescentes ou jovens adultos com as hormonas em sobressalto, entregando sucessões de malapatas regadas a muita música, nudez, sexo, drogas e rock n’ roll (ou EDM no caso do famoso Project X, que também escreveram), nos novos tempos – pensam os argumentistas e produtores – o que é preciso são homens totós, mulheres cheias de personalidade e gags tecnológicas.
Assim, não é de estranhar que por aqui não se encontrem sinais de outrora, implantados no cinema em clássicos da parvoeira como Porkys, Solteiros e Tarados e American Pie. Não há burros cocainados, não há uma “Lassie” a uivar quando tem sexo, uma casa completamente destruída por uma festa ou um noivo desaparecido após uma despedida de solteiro. Não, meus amigos, o sinal de irreverência vendido por aqui é um antissocial a estabelecer uma relação com um aplicativo de um telemóvel, uma Jexi (pensem em Siri), que funciona como uma Her de Spinke Jonze que se comporta como a sua consciência negra, um alter-ego que o vai ajudar a se emancipar e a estabelecer relações humanas.
Não é assim de estranhar que numa das cenas mais bizarras do cinema recente tenhamos o protagonista (Adam Devine sempre igual) a masturbar o seu novo telemóvel através da introdução do cabo da bateria nele a grande velocidade. E o telemóvel atinge o orgasmo com essa fricção. Sim, é isto o que a comédia norte-americana se tornou, ao não ter coragem de lidar com humanos e dos parodiar por medo de ofender alguém.
Na verdade, como Todd Phillips (realizador de A Ressaca) disse em Veneza quando falava do seu Joker, “a comédia é a verdade e a verdade tornou-se ofensiva nos EUA“. Por isso, em vez de mostrar doses iguais de piadas sexuais e nudez entre homens e mulheres nos filmes, acabam-se com essas piadas, e seguimos por outra via, construído gags nos mesmos lugares comuns, mas a incidir sobre objetos ou inteligência artificial.
O resultado é uma verdadeira desgraça de filme, mas daqueles que nos deixa esperançosos, pois sabemos muito bem que depois deste ciclo em que a indústria não sabe lidar com o politicamente correto virá outro de renegação ao passado, mas já com a ideia marcada na mente da objetificação em regime de igualdade. Porém, e até lá, temos de levar com aberrações como esta, onde apenas Wanda Sykes nos faz sorrir no seu jeito inconfundível.
Jorge Pereira

