Dois Papas está disponível no catálogo Netflix

As regras dos buddy movies são claras e colocam – lado a lado – duas figuras que se opõem em termos de personalidade a serem obrigadas a conviver para executar uma tarefa comum. Dos exercícios de comédia mais clássicos como Bucha e Estica (Laurel & Hardy) a exemplos mais recentes (Eddie Murphy & Nick Nolte em 48 Horas; ou Jason Statham e Dwayne Johnsson no recente Velocidade Furiosa), este tipo de filmes sempre vingou na 7ª arte e é o ponto de partida para este Dois Papas, filme que se baseia na relação dos dois últimos papas, Bento XVI (Anthony Hopkins ) e o seu sucessor, o papa Francisco (Jonathan Pryce).
É um ensaio curioso, carregado de uma palete de realismo quase documental na realização, mas que fraqueja no recurso habitual a flashbacks que viajam ao passado para nos falar de temas bem presentes; a de homens distantes, um mais conservador, o outro mais progressista, que partilham entre si esqueletos no armário que os condicionam, mas que encontram um fio condutor que os une numa espécie de redenção.
Profundamente ligeiro na abordagem às suas personagens, sem o ser completamente superficial ou simples, o que sai imaculado por aqui é a prestação dos atores, até porque Meirelles revela ser um extravagante conservador, que varia entre a excentricidade e a mais absoluta esterilização dos elementos e espaços como que querendo mostrar seres contraditórios em posições semi-divinas. Não consegue totalmente o objetivo, entregando uma mera colagem de frases feitas e biografias pouco densas, mas também não se refugia apenas numa zona de conforto de colocar as suas figuras num pedestal.
Mas uma coisa é certa: há claramente um olhar terno, apaixonado e tendencioso por estas figuras clericais dessemelhantes. Nada de errado, até porque a imparcialidade não se coaduna com a arte.
Jorge Pereira

