«Adults in the Room» (Comportem-se Como Adultos) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Costa-Gravas adapta o livro de Yanis Varoufakis sobre o resgate da Grécia

No seu Santiago, Itália, Nanni Moretti toca ba questão da imparcialidade, ou antes, explicitamente demonstra que não é, não consegue, nem quer ser imparcial. Costa-Gravas, veterano nestas andanças, tem o mesmo sentido de cinema ideológico, e deixa-o vincadamente marcado neste Comportem-se como Adultos, adaptação ao cinema das memórias do ex-ministro das finanças grego, Yanis Varoufakis, sobre os episódios que moldaram negociações entre uma Grécia falida e a Troika, em 2015.

Com o país à beira de um ataque de nervos, com um crescimento desenfreado da extrema direita (Aliança Dourada), do sentimento eurocético, e nítidos problemas humanitários, Varoufakis tentou suavizar a penalização que a Troika vinha impondo através de uma austeridade cega e condenável (eu também não sou imparcial). E tal como no livro em que se apoia, onde não existe uma grande autocrítica e se viaja numa encenação do real da típica luta de David contra Golias, Costa-Gravas segue a mesma rota, funcionando assim este objeto fílmico como um importante registro histórico de um dos lados da barricada, que naturalmente não escapa à manipulação e martirologia.

Mas o que sobressai neste Comportem-se como Adultos são – acima de tudo – as deficiências de uma União Europeia, recheada de tecnocratas com claros problemas democráticos, que se agiganta contra ideias próprias dos seus estados membros. É que hoje em dia fala-se, por exemplo, do Brexit como algo caído do céu, ou de uma decisão exclusivamente proveniente de uma longa campanha de desinformação (que existiu), mas esquece-se que demasiadas vezes nesta década a U.E. foi regida pelas ideias centralistas de Bruxelas, muitas vezes por figuras nunca eleitas, que ajudaram arrogantemente a despertar das sombras populistas como Nigel Farange, e outros nomes da extrema direita no leste e no sul da Europa. Pegando no caso específico da Grécia, veja-se a leviandade de quando Alexis Tsipras, presidente do Syriza, decidiu (foi obrigado) a aceitar as condições impostas pelas Troika, ignorando o resultado de um referendo nacional que convocou. Ou seja, o que Bruxelas disse claramente: “isto é democracia, mas quem manda aqui somos nós“.

Quanto à vertente técnica do cinema por aqui, lamenta-se a queda por diversas vezes de Comportem-se como Adultos num registo de telefilme, ainda que o seu final – artisticamente curioso e hilariante – cimente o tom de farsa e torne a produção mais elegante e longe da esquadria de uma espécie de reconstituição de eventos para o pequeno ecrã, como se de um bailado ou peça se tratasse, uma verdadeira tragédia grega, diriamos mesmo.


Jorge Pereira

Últimas