«Where’d You Go, Bernadette?» (Onde Estás, Bernadette?) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

“I’m not too good when exposed to people”

Esperava-se mais do realizador Richard Linklater (responsável pela trilogia Antes do Amanhecer e Boyhood) neste Onde Estás, Bernadette?, adaptação do best-seller de Maria Semple (editado inicialmente em Portugal com o nome Até ao Fim Do Mundo), mas embora estejamos perante um exemplar menor da sua cinematografia, o cineasta consegue ainda assim ser minimamente eficaz na criação de um filme de família “feel good” que nas entrelinhas toca em pontos sensíveis e complexos sobre a saúde mental de uma mulher criativamente reprimida.

Ensaio sobre desilusões, génio sufocado, e busca da criação da mais bela das obras, seja esta arquitetónica, ou na forma da sua filha, no filme seguimos Bernadette Fox (Cate Blanchett), uma força da natureza no mau feitio, uma antissocial arrogante e um talento excecional da arquitetura que, por opção própria, abandonou a carreira e transformou-se num mito perdido (mas não esquecido). Agora entregue a pequenos trabalhos, trivialidades e à educação da filha, Bernadette tem extremas dificuldades comunicacionais com todos à sua volta, a começar com o seu marido (Billy Crudup), um alto funcionário de uma empresa ligada à Microsoft.

Se há coisa que realmente falha nesta adaptação é a escassa construção e complexidade das personagens secundárias, verdadeiros bonecos de cartão numa narrativa totalmente centrada na nossa Bernadette. Com um enorme desmazelo na forma estereotipada como se tratam os papéis entregues a Laurence Fishburne, Judy Greer e Kristen Wig, o filme perde complexidade e camadas de análise, embora esta última atriz – no papel de vizinha e coqueluche de um bairro dos subúrbios à la “Beleza Americana” – consiga preencher e dar uma dimensão empática ao esquematismo que o guião lhe entrega.

Com Crudup também pobremente tratado, muito perto de todos os lugares comuns do workaholic tecnológico, tudo o resto por aqui é o show Blanchett, num jogo entre a loucura, depressão, alienação, mas acima de tudo repressão da criatividade artística. Incompreendida por todos, menos pela filha, Bernadette faz uma promessa a e cumpre-a no meio de intervenções familiares e psiquiátricas que a levam para um destino incerto. E é nesse afastamento, quando realmente foge e se afasta fisicamente dos seus, que Bernadette se reencontra e se deixa reencontrar pelos que lhe são mais próximos.

 
Jorge Pereira

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