«Charlie’s Angels» (Os Anjos de Charlie) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Adaptação da famosa série de TV dos anos 70, que por sua vez teve uma versão cinematográfica no início do milénio, os “anjos” de Charlie estão de volta, tão descartáveis e aborrecidas como sempre.

Seguindo o mesmo conceito: um grupo de mulheres que luta contra o crime, usando para isso o charme, a violência e o cérebro, o filme revela-se um facelift geracional, um papel de embrulho de época que envolve uma prenda desgastada, esquemática, previsível e até antiquada, até porque no seu jeito de mistura banal de comédia e ação, onde não faltam os estereótipos,  e onde se legítima os “anjos” com a ligeireza de uma peça que tem o entretenimento imediato como fim absoluto. E embora se saúde a existência de consequências (há mortos e temos noção deles), tratados como “danos colaterais” (desculpa tão frequente no mundo militar), não se iliba completamente as “heroínas”, vingando mais uma vez o pensamento “do mal menor”.

A verdadeira novidade por aqui é que existe uma mulher à frente da realização e argumento, Elizabeth Banks, isto num produto criado e construído sob um olhar masculino sempre fetichista. O tom sexy das mulheres está lá, notando-se sim uma menor objetificação, mas no essencial, quando passamos da “fase embrulho”, não encontramos praticamente nada de novo por aqui, senão – mais uma vez – atrizes a sobressair no meio de tudo isto. Nesse aspeto, Kristen Stewart realça-se e Naomi Scott entrega qualidade e carisma. Já o terceiro elemento dos “Anjos”, Ella Balinska, é um verdadeiro “work in progress”, algures entre o desleixo, a inocência, a inteligência e a emancipação. Já “Bosley” e o famoso Charlie são revistos pelo Zeitgeist sem consequências de maior.

Mas nada disto funciona concretamente, até porque a direção de Elizabeth Banks não consegue entregar verdadeiros momentos de adrenalina, ou raios marcantes de humor, ficando o drama e o mistério na esfera da mera reciclagem, do videoclipe prolongado que não tem nada de novo para dizer. Para piorar, as referências (onde até Terminator 2 vem ao barulho, para além da cena dos créditos finais) são banais, a montagem é desajeitada, e a banda-sonora revela-se extremamente intrusiva e insuportável, especialmente para aqueles que não têm em Miley Cyrus, Ariana Grande e companhia nos seus gostos musicais.

No todo, estamos perante mais um daqueles objetos frustrantes vindos de uma linha de montagem bem oleada, mas totalmente inerte e incapaz de uma verdadeira renovação. A evitar…


Jorge Pereira

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