«Midway» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

“Mayday…Mayday”. A carreira de Roland Emmerich está em queda livre

É difícil perceber como em 2019 ainda se constroem filmes no ocidente como Midway, um filme-recruta militarista assente no heroísmo norte-americano, sempre mascarado de filme histórico e de reconstrução do “real”, mas que se rege através dos códigos da indústria de cinema para massas dos anos 80 e 90, aquele claramente fanfarrão, branco, masculino, capaz de entregar um enorme espetáculo audiovisual, mas totalmente inerte na sua construção narrativa para além do óbvio.

Pegando num facto histórico – a batalha de Midway, que mudou o curso da guerra no pacífico entre os EUA e o Japão durante a Segunda Guerra Mundial – Roland Emmerich constrói um exercício de bravura ao longo de duas horas e meia, não muito diferente da propaganda da curta-metragem que John Ford fez in loco no teatro da operações, também ela uma “reconstrução do real”. Assim, somos levados para a versão dos eventos trabalhados por Wes Tooke, o argumentista deste objeto amorfo saído de uma cápsula do tempo, que apesar de fugir à diabolização do inimigo, os nipónicos, apresenta-os cobertos dos mais diversos clichês e estereótipos pastelões de honra. O mesmo se passa com os norte-americanos, o vizinho que Ford falava na sua curta, apresentados entre a loucura e a rebeldia, mas sempre com isso ao serviço da coragem. Midway está entre o paupérrimo Pearl Harbour e o “fun” gabarolas Top Gun, mas tudo é tão previsível e bolorento que nos faz regressar à pergunta inicial: como é que ainda se fazem hoje em dia filmes destes, verdadeiros teatros de operações militares que tratam os soldados como modelos de recruta canastrona para a máquina militar?

Há uns meses, um alto cargo da indústria chinesa de cinema dizia que – apesar dos grandes sucessos no território dos filmes locais (também eles repletos de patriotismo saloio) – ainda estavam 15/20 anos atrás da indústria norte-americana. Esses 20 anos notam-se na mensagem, mas igualmente na tecnologia. Basta comparar os efeitos visuais e o trabalho em CGI deste Midway e Air Strike, filme que até contava com Bruce Willis num papel de relevo e que retratava a versão chinesa da 2ª guerra sino-japonesa. Os efeitos visuais neste filme eram absurdamente mal conseguidos (as cenas aéreas faziam lembrar o Major Alvega), mas as emoções em cena não eram superiores e estavam enlameadas de melodramatismo. Na verdade, estávamos perante um caso grave de filme patriota, propaganda à “Mãe China” e ao seu regime.

Midway não vai tão longe, nem tão pouco é um daqueles exercícios para adolescente vibrar “à la Michael Bay” enquanto se vende o fascínio militar, mas é provavelmente o mais anónimo dos filmes de Roland Emmerich, que vindo de vários desaires (sequela de Dia da Independência e Stonewall), necessita de um sucesso imediato como de “pão para a boca”. Tudo aqui é “by de book”, um verdadeiro filme de produtor com o dedo indelével de recruta para o exército norte-americano.

O resultado é desastroso e nem os atores – que cumprem os seus papéis em personagens minúsculas – salvam o filme, até porque aprendemos mais sobre eles no “powerpoint” final do que durante o filme.


Jorge Pereira

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