Oh Les Filles traça o papel da mulher numa indústria musical e sociedade dominada pelos homens

A forma é totalmente televisiva (de “cabeças falantes”) e a informação é apresentada de maneira difusa e sem grande cronologia ou ordem, mas ainda assim Oh Les Filles consegue traçar uma visão curiosa e retratar a luta das mulheres no universo do rock e pop francês com alguma mestria, indo além da cultura do sexo, drogas e rock n roll que um documentário semelhante sobre homens rockeiros franceses certamente apresentaria. O grande tema aqui são as dificuldades destas vedetas musicais gaulesas em sobressairem numa sociedade patriarcal que inevitavelmente se refletia no meio onde acabariam por singrar. No passado e agora.
Por tal, este não é verdadeiramente um filme sobre música, mas efetivamente sobre questões ligadas ao feminismo neste universo, com destaque para algumas considerações em torno dos conceitos padronizados de beleza (que jogavam contra Françoise Hardy nos tempos de Brigitte Bardot, ou impunham a Charlotte Gainsbourg que quisesse ser tão bonita como a mãe) ou na ligação destas mulheres à causa feminista, principalmente nos anos 70, sendo refletido no ecrã diversas imagens de arquivo que curiosamente também aparecem no documentário Delphine e Carole (A luta feminista tem de ser transversal).
Filmado pelo jornalista transformado em repórter François Armanet, Oh Les Filles conta assim essencialmente com depoimentos relevantes e reflexivos das mais variadas personagens da cena musical francesa, nomeadamente – e além das já mencionadas – de Vanessa Paradis e da genial e hilariante Briggite Fontaine, que num determinado momento até acaba por perder o seu cigarro enquanto diz que não gosta de ser chamada de mulher, mas de “gaja” ou “fémea”.
E só por isso vale a pena ver. E dançar enquanto se vê, pois boa música não falta…

Jorge Pereira

