Filme sobre símbolo Lusitano é ambicioso mas mostra-se incapaz de cumprir os objetivos

Preza-se o esforço do realizador Luís Albuquerque e da autora do guião, Ana Carolina Pascoal, em embarcar numa história patriótica e aventureira que tenta idealizar e idolatrar um dos líderes mais importantes da tribo lusitana que confrontou os romanos na Península Ibérica, mas essa querela é atraiçoada não só pela pelas limitações orçamentais óbvias no projeto, como pela excessiva teatralidade de algumas interpretações (principalmente as romanas) e alguns apontamentos que mostram claros erros e “trambolhões” da direção, como aquele plano da batalha final em que um enquadramento mal medido a um soldado romano obriga a câmara a descer apressadamente com naturais resultados negativos para a cena.
Este “pequeno grande” detalhe é apenas mais uma farpa num trabalho que tenta à força ser um épico de aventura e guerra (a banda-sonora e até o lettering suplicam por isso), mas que só tinha pernas para andar se se focasse nos homens e na desconstrução das personagens. É que quando se faz cinema que se quer epopeico, naturalmente teremos de expandir os nossos planos cinematográficos para dar ao espectador esse mesmo sentimento. E nem é preciso pegar em Braveheart ou Gladiador – filmes profundamente emocionais centrados num héroi – para se comparar a este projeto. Vamos apenas ao trabalho recente de Matteo Rovere sobre a fundação de Roma: o intenso Il Primo Re.
O cineasta pretendeu igualmente um trabalho repleto de mística e até idolatria, mas fugiu do formalismo do épico Sword-and-sandal, dos planos gerais ou extremamente abertos para se centrar nas suas limitações e objetivos, preferindo planos médios, grandes planos e até de detalhe para assim centrar-se na pessoa e não no seu caráter épico. Para isso, Rovere “suja as mãos” e abandona essa tal aura épica e consegue com menos dinheiro (um orçamento de 9 milhões) um trabalho bem acima da qualidade dos dois filmes mencionados.
Claro que não se exigia a Viriato essa qualidade técnica (cinematografia, direção, montagem, banda-sonora), especialmente quando o orçamento deve ter sido extremamente inferior a qualquer dos exemplos dados, mas o mínimo que se pedia era brio e contenção (há muita paixão e menos cabeça) perante as suas limitações, onde fugir à verborreia patriota cliché e dar uma maior dose de ambiguidade às personagens conseguia-se sem qualquer esforço monetário suplementar.
Para além disso, Viriato tenta ainda explorar – e falha – na sua vertente romântica, e infelizmente nunca consegue que o espectador crie qualquer real empatia com as personagens secundárias, mostrando-as como figuras descartáveis e sem qualquer complexidade ao serviço de um homem: Viriato. E por falar nele, na construção da sua personagem as coisas não são diferentes, mas aqui há algo que faz alguma diferença: Alexandre Oliveira. O ator consegue reunir em si carisma, roubando facilmente todas as cenas, e parecendo um rei entre plebeus.
No final, e apesar de saudar-se esta “aventura Lusitana”, este peplum lusitano, Viriato é um projeto que soa a incompleto, falhado e que visto em Cinema não ganha absolutamente nada. Dadas as suas limitações, teria sido preferível “enviá-lo” diretamente para a TV, ou então, tivesse Portugal um mercado de streaming decente e com alguma orientação para as nossas produções e provavelmente este poderia ter sido um pioneiro nessa área. Certamente o filme ficaria melhor servido e nós também.

Jorge Pereira

