Quando, em 2015, numa conversa com a Lusa, Pêra descreveu o seu novo projeto como “pós-apocalíptico” numa Lisboa em Guerra Civil, nada fazia entender que entrariamos numa das viagens mais interessantes do cinema luso em 2018.

Estreado no ano passado, mas apenas exibido comercialmente este ano, Caminhos Magnétykos pode ser descrito como uma viagem “pesadélica” ao universo de Branquinho da Fonseca, autor do qual o cineasta já tinha adaptado Rio Turvo em 2007 e O Barão em 2011.
No centro de toda a ação da fita está Raymond (soberbo Dominique Pinon), um parisiense que veio para Portugal com o 25 Abril, apaixonou-se e ficou, onde reside há 40 anos. Vivendo na dependência económica da sua mulher Gertrudes, que constantemente o chama de sapo, Raymond prepara-se para casar a sua filha de 21 anos, Catarina (Alba Baptista a confirmar talento depois de “Leviano“), com Damião (Paulo Pires exemplar), um homem rico e um influente nome no governo, ao ponto do primeiro ministro visitar a boda. É nessa noite e após a união que Raymond irá experienciar uma revolta interior e uma viagem que o coloca mesmo no “centro de uma conspiração astral“, onde nem Ney Matogrosso falta.
Para além de ser uma viagem profundamente sensorial à mente de Raymond, ao velho e novo Portugal, onde a estética de justaposições de imagens e o trabalho tonificado das cores demarcam as imagens de marca de Pêra, Caminhos Magnétykos é uma ácida crítica aos tempos que correm, ao regresso dos fascismos, do controle (pela cidade de Lisboa, um drone avisa as pessoas sobre o recolher obrigatório), onde nem Donald Trump escapa nessa caminhada, tal como algumas figuras nacionais, cujas citações ao longo da sua carreira política foram incluídas no guião.
E a acompanhar esta viagem caledescópica, turbulenta temos uma banda sonora fulminante de acordes “magnéticos” a cargo The Legendary Tigerman, Tó Trips, Manuel de Oliveira e mais, o que tudo misturado e embaralhado por uma montagem absolutamente hipnótica resulta num dos melhores trabalhos do cineasta nos últimos anos. Definitivamente, Pêra e Branquinho são um casamento de sonho e Caminhos Magnétykos um novo expoente máximo dessa colaboração.

Jorge Pereira

