«Photograph» (Fotografia) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

O amor e a delicadeza

A delicadeza dos gestos, a discrição nos olhares e a densidão dos silêncios são marcas do cineasta Ritesh Batra (A Lancheira; Nós, ao Anoitecer), o qual regressa aqui a Mumbai para contar uma história aritmética de encantamento entre duas almas marcadas pelo passado e pressionadas por uma sociedade mecanizada e rígida nas suas regras e encaixes padronizados.

E se o poder da imagem é essencial numa obra que circula em torno de uma fotografia, do seu fotógrafo e do objeto fotografado, é na experiência sonora que a caótica Mumbai é melhor apresentada no grande ecrã, com o constante crucitar dos corvos e buzinadelas a colarem-se aos nossos ouvidos e a nos transportarem para lá. E sim, temos uma viagem topográfica a alguns dos seus pontos turísticos, como as Portas da Índia e o seu enorme paredão, repleto de turistas e pequenos comerciantes em momentos de puro cliché excursionista, mas igualmente de uma imensa nostalgia e melancolia.

Mas esta Fotografia, como se esperava também, é também uma viagem às eternas diferenças de classes, de castas, subtilmente abordadas por Batra nas marcas bronzeadas na face do nosso protagonista, na ligação à ruralidade, na partilha habitacional e na ausência ou presença de educação escolar. Neste frente a frente entre o nosso acanhado anti-galã e a jovem mulher enigmática, ambos querem algo diferente ao esperado pelos que a circundam, afastando-se dessas imposições e aproximando-se um do outro.

É um filme essencialmente belo pela sua enorme simplicidade, com Batra a construir uma história que tantos filmes já exploraram, auto refletindo isso mesmo num num final desarmante. A diferença dos demais – como os do cinema de Bollywood, é a sensibilidade atordoante do realizador perante as suas personagens, muito longe da espectacularidade, carnalidade e frenesim do cinema ocidental, que prefere normalmente arranjos pop e melosos em torno dos seus amores. O resultado é algo mais perto da pureza, que se confunde com ingenuidade, mas que dela tem muito pouco.

Por tal, e no meio de pequenas pérolas românticas entre dois seres em busca de algo que não conseguem definir, Batra opera um filme de amor singelo, que longe de embaraçar quem o vive apenas nos (re)lembra que a austeridade de ações não implica menor paixão e muito menos emoção.


Jorge Pereira

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