«Operation Brothers» (Mergulho no Mar Vermelho) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

“Chris Evans, o nosso conhecido Capitão América, bem podia ter o cognome de Capitão Israel por aqui”

Um ano depois de contar os feitos da Mossad na captura de nazis na Argentina, a Netflix orienta-se agora para uma outra missão da secreta israelita, desta vez de caráter mais humanitário (e menos justiceiro) já que aborda o salvamento e transporte para a “Terra Prometida” de milhares de judeus etíopes que no meio de guerras civis e perseguições acabam estancados em péssimas condições num campo de refugiados sudanês.

Chris Evans, o nosso conhecido Capitão América, bem podia ter o cognome de Capitão Israel por aqui, já que é da sua mente e dos seus músculos que todo o esquema de resgate é montado, inclusivamente a compra por parte da Mossad de um hotel no Sudão que serve de fachada para toda a operação. Com ele, nesta missão à Avengers sem super-poderes, temos Michael Kenneth Williams, Haley Bennett, Alessandro Nivola, Michiel Huisman, Chris Chalk, Greg Kinnear e Ben Kingsley.

Nas habituais guerras de críticas de utilizadores na IMDB, as opiniões dividem-se entre acusações de propaganda a Israel, e obra-prima humanitária sobre uma história real. A verdade é que mais que uma propaganda a um estado, estamos perante a propaganda ao trabalho dos seus serviços secretos, não tão diferente do que qualquer filme sobre missões de salvamento do MI6 (James Bond, por exemplo) ou da CIA (contém os filmes sobre o Iraque ou até Argo, no Irão) fazem para beatificar o propósito destes grupos. É mais um filme a glorificar o militarismo através dos feitos destes homens, que salvaram milhares e fizeram-nos cumprir o sonho religioso de um dia estarem em Jerusalém. É também aquilo que os americanos chamam de filme com o complexo “white savior“.

Mal estes judeus etiopes sabiam que iriam encontrar um racismo sistémico na Terra Prometida, o qual dura até hoje, pois segundo dados recentes da Associação Israel para os judeus etíopes, o rendimento médio per capita é 40% menor ao da média e mais de um terço das famílias (38,5%) vive abaixo do limiar da pobreza.

O filme menciona, a espaços, esse racismo, mas sempre de uma forma tímida, distante e orientada para uma ou outra personagem isolada que questiona aqui e ali porque se iriam gastar tantos meios para salvar judeus negros.

Porém, na maior parte do seu tempo, este Mergulho no Mar Vermelho é orientado para o ato heróico das forças de segurança, para a felicidade dos salvados, e para a banalização de todos os clichés possíveis e imagináveis sobre as terras africanas e suas gentes. E sendo assim, fica muito longe de qualquer noção de realismo e muito mais próximo de uma versão fábula “feel good” pronta a encantar incautos. 


Jorge Pereira

Últimas