«Dirty God» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Dirty God é um filme sentido e doloroso sobre a vida de uma mulher após ser atacada com ácido pelo seu ex-companheiro

Os 465 ataques com ácido clorídrico que aconteceran em Londres em 2017 foram um dos motivos para a cineasta Sacha Polak avançar com este Dirty God, um filme doloroso e sentido sobre a vida de Jade, uma jovem mãe que foi atacada pelo seu ex-companheiro. Com marcas no pescoço, peito, braços e parte do rosto, Jade é um exemplo de resiliência, tentando o filme mostrar  – com algumas provocações adúlteras pelo meio – que as queimaduras podem curar, mas as cicatrizes internas permanecem.

Polak  – responsável em 2011 pelo intenso Hemel –  não fez a coisa por menos e escolheu Vicky Night, atriz em estreia, também ela marcada gravemente por queimaduras quando era criança, para o protagonismo, estudando a psicologia de uma mulher abalada por marcas recentes, à flor da pele, mas que se entranham em todos os pontos da sua alma e vida quotidiana, seja na dificuldade em encontrar trabalho ou um companheiro, seja devido do próprio medo que a sua filha bebé tem ao vê-la depois do incidente.

Há um momento particularmente tenebroso neste drama, quando Polak leva a nossa Vicky a tribunal assistir ao julgamento de quem a deixou naquele estado. Como se estivesse num palco teatral, os holofotes centram-se nela e tudo à sua volta é escurecido e ensurdecido, dando azo a um momento tão intímo e aterrorizador, como se o mundo desaparecesse e todo o medo se reunisse numa única figura, a do homem que a desfigurou.

Estéticamente aprumado, como Polak gosta que os seus filmes sejam (entre planos longos e curtos), Dirty God entra por momentos algo redundantes e previsíveis no seu último terço, embora ofereça um olhar atento e desconstrua com alguma frescor a sua protagonista para além dos ensaios psicológicos e sociais de inclusão padronizados na semântica da linguagem do cinema mais comercial. Não, não é um crowd pleaser sobre resiliência e superação, mas uma observação taciturna e pragmática de como nada será como de antes depois de um incidente como este.


Jorge Pereira

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