«Share» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Abençoada seja esta “nova geração” de cineastas norte-americanos onde se incluem Bo Burnham e agora Pippa Bianco.

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Jogou pelo seguro – e fez bem – a jovem Pippa Bianco, que se estreia com este Share na realização de longas-metragens, uma adaptação de uma curta da própria realizadora que venceu o primeiro prémio na Cinéfondation do Festival de Cannes em 2015.

Com aquele triunfo e um filme de qualidades – técnicas e narrativas – Pippa poderia facilmente surgir na Semana da Crítica Cannoise, poiso predileto dos jovens cineastas europeus, mas ao aventurar-se por Sundance não conseguiu só estar na competição principal, chamar a atenção do mercado norte-americano e ter uma distribuição global pela HBO, o que significa que vai chegar a um público mais vasto que o que teria certamente no cinema.

E faz sentido falar em público mais vasto, porque para além de ser uma obra que – como já disse – tem as suas qualidades cinematográficas inquestionáveis, circula em torno de um tema que não só cada vez mais faz as machetes do jornal, como também serve de aviso para toda uma geração adolescente da era “Euphoria”. Não é à toa que escolhi esta série da HBO para falar deste Share, pois ambos partilham uma linguagem estética semelhantes (uma palete de cores tão vibrante e festiva como sufocante e tóxica) e aproximam-se no estudo de uma sexualidade violada cada vez mais centrada no poder e maldição da imagem que se multiplica por partilhas e partilhas por toda a internet.

E esse é um dos focos deste primeiro trabalho de Pippa, a história de uma adolescente que após uma noite de copos acorda à porta de sua casa em plena relva. Há hematomas por todo o corpo, mas as recordações da noite são nulas. A cineasta adensa o mistério ao que aconteceu com uma invasão sonora de beeps vindos de um telemóvel. É nesse momento que a nossa protagonista, transtornada com a falta de memória, vai descobrir que circulam videos consigo completamente inconsciente, semi-nua e sob a “vistoria” demasiado próxima de um grupo de rapazes.

A partir daqui instala-se a dúvida, a paranóia e multiplicam-se as consequências sociais e familiares do ato despoletado pela mera partilha. Nisto, a nossa Mandy, interiorizada brilhantemente por uma pérola da atuação chamada Rhianne Barreto, que entre a contenção e o profundo mistério do que lhe aconteceu, embarca numa personagem tão absorvente e incógnita como transparente e madura. Ao seu lado, quer pais, quer amigos, quer colegas, passeiam relevância no conteúdo que trazem à história, impondo o ritmo lento, passivo e desorientado uma profunda reflexão em tudo o que vemos em cena.

E embora Pippa Bianco tenha ainda alguns elementos para aprender e retocar na forma como usa os simbolismos e esquematiza a sua estética em moldes derivativos, Share acaba por ser um triunfo e um excelente indício que temos aqui uma realizadora já com uma certa maturidade no tratamento das personagens e na exploração das emoções, sempre muito longe da manipulação ou ativismos mercantis, mas próximos do coração e razão.


Jorge Pereira 

 

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