«La Quietud» (Um Segredo de Família) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Pablo Trapero aventura-se no melodrama. Nem tudo corre bem, mas este continua a ser um dos mais interessantes cineastas da América do Sul

Já com uma prolífera carreira no cinema desde o final de 1990 (Mundo Grua, El bonaerense, Familia Rodante, Leonera, Nacido y Criado, Carancho – Abutres, Elefante Blanco e O Clã), o argentino Pablo Trapero arrancou para este La Quietud (Um Segredo de Família) com novas ambições, abandonando o realismo social para entrar no campo do grande melodrama (muitas vezes associado à telenovela), onde não faltam momentos de grande e virtuoso cinema (o plano sequência num velório é tremendo) e inúmeras referências pelo caminho, que vão desde Hitchcock (aquela chegada ao rancho Quietud lembra a chegada a Manderlay de Rebecca), até Buñuel (no sentido de humor absurdo) e Ingmar Bergman (dos close-ups à análise da psicologia das personagens e das famílias disfuncionais).

Nem tudo funciona em pleno nesta obra que apesar de se afastar do estilo original do cineasta, mantém muitos dos seus temas e focos. Novamente acompanhamos de perto uma família, mas do sistema patriarcal brutal pronto a sujar as mãos de O Clã passamos para a matriarcal “de colarinho branco” a saber viver com esqueletos no armário e os seus demónios internos de La Quietud. Aqui, e também mais uma vez, as hipocrisias amontoam-se e os benefícios alcançados através da ditadura militar argentina- entre outras traições e enganos – fazem nos crer que todas estas mulheres estariam bem melhor sozinhas do que com os homens que as acompanhavam/acompanham nas suas vidas.

Tudo começa quando o pai da família colapsa e entra num estado vegetativo. De Paris vem Eugenia (Berenice Bejo), que reencontra-se com a irmã Mia (Martina Gusman) e com a mãe, Esmeralda (Graciela Borges) na herdade de La Quietud, espaço onde Trapero impele mudanças de género constantes no guião, que vão do drama à comédia, passando pelo thriller e policial, não esquecendo situações de puro erotismo .

E por falar em erotismo, causam logo uma enorme estranheza os primeiros momentos de reunião familiar, saltando imediatamente à vista as tensões, ressentimentos e repressões desta classe aburguesada que vive das aparências e status com uma enorme incapacidade de tocar em assuntos desconfortáveis que ponham em causa a “estabilidade”. É uma família disfuncional profundamente em negação disso mesmo, e neste reencontro fraternal saliente-se a união “abençoada” das manas com uma sessão de masturbação conjunta de cariz incestuoso que mostra imediatamente a sua proximidade, complexidade, mas também rivalidade, traduzida literalmente momentos mais tarde quando descobrimos que partilham amantes.

Sim, elas poderiam ser gémeas biológicas por aqui, mas não o são, embora Trapero jogue bastante bem com as duas criando duas almas simbióticas nos “vícios” e personalidades herdadas de um legado apodrecido de uma certa elite que canibalizou oponentes na sua ascensão social (Trapero mostra a sua imparcialidade total na História Argentina). E é nesse jogo de quem é quem das manas e qual é a que está a fazer algo – confundindo propositadamente o espectador com as suas ações ambíguas, paradoxais e surpreendentes – que Trapero consegue o melhor do seu filme (sem dúvida a dupla Gusman-Bejo). Pena é que nessa construção a produção nunca se comporte como um bloco compacto, mas antes uma amálgama de momentos e situações regidas a um ritmo e interesse inconstante.

Ainda assim, La Quietud é um passo em frente do cineasta, que embora tropece algumas vezes neste seu melodrama, especialmente ao navegar entre géneros e num terceiro ato que se precipita, mostra que Trapero continua a ser um dos cineastas mais interessantes da América do Sul.


Jorge Pereira

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