Um pequeno passo para o cinema, um grande passo para o pensamento. Her, de Spike Jonze, pode não ser a grande reinvenção da roda que muitos anunciam, mas sabe colocar as questões certas sobre o amor humano, capazes de alimentar conversas que durem dias.
Por outras palavras, estamos perante um filme aparentemente até bem simples, não fosse o “twist” central da narrativa: a existência de um sistema operativo capaz de aprender por si só, e de amar (ou de deixar de amar) um ser humano, como se fosse… outro ser humano. Este OS, de nome Samantha (uma espetacular Scarlett Johansson, numa performance puramente vocal), é ativado por Theodore (interpretado por Joaquin Phoenix no seu estilo habitualmente “cool”), um homem solitário ainda a recuperar de uma separação conjugal. Entre os dois inicia-se uma relação séria, capaz de desafiar barreiras físicas.
Se é certo que nada disto bate a primeira vez que vimos o andar 7 e meio, ou John Malkovich a entrar na sua própria cabeça, na primeira (e única, até ao momento) obra-prima de Spike Jonze no cinema (Being John Malkovich), é verdade que há aqui momentos verdadeiramente geniais – sem querer estragar muito a experiência, há aqui espaço para o “ménage a trois” mais invulgar dos últimos anos, e a introdução da temática poliamorosa no contexto tecnológico. É em momentos como estes de fazer qualquer um boquiaberto que o filme ganha muitos dos seus pontos.
Os tempos são diferentes, também. E como retrato realista do nosso tempo num futuro não muito distante – o filme é ainda assim “ficção científica” mas parece mais real que muito “caso da vida” oscarizável – Her não tem adversários. Há aqui muitos espelhos – demasiados até para absorver num único visionamento.
Se podia acabar de forma tão inventiva como o seu melhor? Podia. Mas tal como está, já é uma das obras mais originais e queridas que vamos ver esta temporada.
O melhor: Os novos paradigmas e os múltiplos espelhos que consegue colocar sobre a nossa realidade atual.
O pior: Não ser melhor que a soma das suas partes geniais.

André Gonçalves

