«360» (360 – A vida é um círculo perfeito) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

O bater das asas de uma borboleta no hemisfério sul pode provocar um furacão no hemisfério norte. Assim o diz o Efeito Borboleta, algo que se pode enquadrar na Teoria do Caos, pois há fenómenos imprevisíveis que não seguem padrões matemáticos estáveis e sobre os quais é impossível antever. No cinema esta imprevisibilidade das ações/reações e efeitos em cadeia tem sido estudada de forma sistemática, basta lembrar o filme «Efeito Borboleta» ou até «Bug», uma comédia mordaz que começava com um rapaz a matar uma barata e todos os efeitos dessa decisão na vida quotidiana de diversas pessoas. 
 
Munindo-se de «Der Reigen» do dramaturgo Arthur Schnitzler, Fernando Meirelles conta as reações em cadeia a partir de uma mulher que em Viena decide entrar no mundo das acompanhantes de luxo. A partir daqui um homem (Jude Law) vai contratá-la, mas à última hora decide não ter nada com ela. Começa aqui também uma viagem por algumas cidades mundiais, como Paris, Londres, Bratislava, Rio, Denver e Phoenix, contando-se uma série de pequenas histórias interligadas entre si e que demonstram o desapontamento generalizado e a crise de valores de um mundo já de si em crise económica.

Este género de histórias aparentemente desconexas mas que mais tarde se unem, também tem tido uma longa vida no cinema e normalmente o publico gosta mais delas que a critica profissional (até porque se banalizaram). «Os Americanos» de Robert Altman, «Magnolia» de Paul Thomas Andersen, «Crash – Colisão» de Paul Haggis são apenas três dos vários exemplos que povoaram os cinemas nas últimas décadas, uns com maior sucesso que outros. Uns mais amados que outros. 
 
Depois de «Cidade de Deus», «O Fiel Jardineiro» e «Ensaio Sobre a Cegueira», Meirelles faz assim uma viagem caleidoscópica às relações que unem personagens de diferentes cidades, mostrando que muitas vezes esta globalização de ligações afetivas estão presas e são codependentes de diversos outros valores, sejam religiosos, laborais ou até de diferentes índoles. Por isso mesmo, e como é comum na maioria destas obras, ao se lidar com tantas personagens, se acabe por desprezar grande parte delas e as suas histórias. Veja-se o caso de Ben Foster, que aqui interpreta o papel de um predador sexual, naquela que é uma das mais curtas e brilhantes prestações do ato (e o segmento mais forte deste filme). O mesmo se pode dizer de AnthonyHopkins, um pai desesperado em encontrar a sua filha desaparecida. Ou então Valentina, uma mulher casada com o motorista, guarda-costas e «cão» (como ele diz) de um criminoso russo, mas que está apaixonada pela patrão, um dentista muçulmano que terá de optar entre ceder à tentação de relacionar-se com uma mulher casada. Pelo meio ainda há Laura, uma jovem brasileira carente que acaba a sua relação com um fotógrafo que a enganava com a personagem de Rachel Weisz, uma editora de moda que é casada com Jude Law, o homem que no início contrata uma prostituta mas que decide não avançar com a traição. 
 
O filme evolui assim num conjunto de histórias interligadas, curiosas mas que nunca vão mais além do que mero entretenimento passageiro devido ao seu tom e abordagem demasiado ligeiro e superficial. E é essa superficialidade que salta mais à vista num cineasta habituado a fazer obras comerciais com maior profundidade. 

O Melhor: Ben Foster e a sua história 
O Pior: Demasiado superficial
 
 
 Jorge Pereira

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