«Elena» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Realização: Andreï  Zvyaguintsev
Elenco: Nadezhda Markina, Andrey Smirnov, Aleksey Rozin

A Rússia pós-perestroika emerge sob uma luz outonal neste retrato sociológico impiedoso de Andreï Zvyaguintsev nesta sua terceira longa-metragem – vencedora do Prémio do Júri da A Certain Regard do Festival de Cannes no ano passado. Sem travellings e como quem compõe um portfólio, Zvyaguintsev vai apresentando seus personagens sob a moldura do quotidiano – criando espaços familiares onde se movimentam desempregados crónicos, adolescentes desocupados e violentos, ao lado de ricos hedonistas, materialistas e plenamente imbuídos da ideologia liberal. No meio destas esferas, que demonstram uma divisão de classes ainda bem viva no mundo pós-comunista, movimenta-se Elena, uma pacata dona de casa que, quando necessário, terá de buscar em antigos valores as ferramentas para sobreviver neste novo cenário.

Estes fragmentos são apresentados com grande economia de cenas e diálogos, onde um trabalho de precisão cirúrgica é auxiliado por uma direção de arte e de fotografia que reforçam, através dos cenários e da iluminação, a familiaridade do ambiente e alcançando, através desta universalização, o estatuto de panorama geral da Rússia contemporânea.

O aparente “estatismo” das imagens, que para já demonstra de forma inequívoca que o uso de “tempos mortos” nada tem a ver com fazer cinema “chato”, é um contraponto perfeito para as modificações que aos poucos vão se tornando percetíveis até conduzir ao um ponto de viragem surpreendente – e cujo tom é dado por Elena numa frase simples mencionada em um momento crucial: “tudo pode mudar”.
 
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Apesar de todas as implicações dessa expressão como retrato dos novos tempos, ela encerra também contradições, na medida em que são os antigos e imperturbáveis laços familiares que ainda compõe os alicerces deste mundo em mutação moral profunda, e com o qual o final “amoral” parece mais do que sintonizado. 

O melhor: a simplicidade com que se atinge a profundidade
O pior: nada
 
 
 Roni Nunes
 

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