É sob o peso dessa herança paterna nada recomendável, marcada pela ausência e pelo abandono, somada a uma tragédia recente, que Nick Flynn (Paul Dano) tenta estruturar a sua vida. E as coisas tendem definitivamente a piorar quando a ausência de repente se transforma numa presença incómoda – trazendo consigo a sua irrealidade e a lembrança constante de que aquilo que o pai se tornou é a sua herança. O cruzamento entre esta tentativa de construção pessoal com a materialização da sua “herança” dá-se num lar de sem abrigos.
Essa sombria relação pai e filho é filmada numa Boston marcada pelo frio onipresente, assolada pela neve e pela chuva constantes. O sol só aparece nos flashbacks onde Nick lembra a relação com a mãe (Moore), ela a própria testemunha trágica do que significa perder a fantasia, esse fio condutor invisível sem o qual o esforço diário não é de fato possível.
Baseado num texto autobiográfico de Nick Flynn, de onde a edição nacional foi buscar o seu título, é um filme também belo no que se refere à arte de escrever e tudo o que ela implica: a sublimação da dor, a fronteira entre a fantasia e a realidade, a possibilidade de comunicação através da escrita.
Posto isso, “Mais Uma Noite de Merda nesta Cidade da Treta” tem alguns problemas narrativos. Weitz abusa no uso das cartas escritas por Jonathan ao filho como recurso para simbolizar a relação destes; ao mesmo tempo, estas tornam-se repetitivas ao enfatizar a mitomania do Flynn pai, a ponto de retirar um pouco do impacte do seu processo descendente. Da mesma forma, o processo “em sentido contrário” do filho é demasiado simplista – com uma queda nas drogas, por exemplo, tão rápida quanto a saída delas. Por fim, a namorada de Nick, a triste e pragmática Denise, numa bela composição da atriz Olivia Thirlby, não é suficientemente aproveitada.
Mas, no cômputo geral, pontos para o realizador, que depois do lamentável “Uma Família do Pior” conseguiu aproveitar De Niro para algo relevante. Um tanto injusta foi a estratégia de lançamento nos Estados Unidos – onde, após uma passagem por um número bastante limitado de salas, foi direto para DVD. Merecia mais.
Apesar de tratar de sem-abrigos, alcoolismo/adição, suicídio e fracasso, o filme nunca chega a ser inconvenientemente pesado – funcionando como um belo retrato do mundo daqueles que naufragaram nas suas próprias ilusões ou, pior ainda, estão a ponto de as perder.
O Melhor: a construção coerente dos personagens
O Pior: alguns problemas na construção narrativa
| Roni Nunes |

