Uma obra de grande sensibilidade em relação às suas personagens e impecável ritmo narrativo
O que nos define na vida? O dinheiro que angariamos? A classe a que pertencemos? Ou antes as escolhas que fazemos, as decisões que tomamos perante as encruzilhadas com que nos deparamos. Esta é a grande questão filosófica que acompanha o protagonista de “As Neves do Kilimanjaro”, MichelMarteron (Jean-PierreDarroussin), um ex-sindicalista que decide colocar o seu nome junto com o de todos os seus colegas para um sorteio para escolher quais os que vão ser apanhados num processo de despedimento colectivo. Michel retira o seu próprio nome e acaba por ser forçado a uma reforma antecipada.
Depois da sua família e amigos se juntarem para lhes oferecerem dinheiro e uma viagem ao Kilimanjaro, os Marteron são assaltados por um homem que mais tarde descobrem tratar-se de um dos seus ex-colegas que tinha sido despedido. Quando fala com ele, Michel, um homem de esquerda, é criticado por se ter tornado um burguês, um membro da classe média que tanto criticou nos seus tempos de juventude. A sua reacção em relação a esta realidade bem como à situação familiar complicada do seu assaltante vai-se tornar mais uma escolha fundamental nas suas vidas.
Realizado por Robert Guédiguian e uma das sensações da última edição do Festival de Cannes, “As Neves do Kilimanjaro” é um filme de grandes ideias que, no entanto, não se deixa seduzir pelo grande âmbito das suas filosofias. Antes, é uma obra de grande sensibilidade em relação às suas personagens e impecável ritmo narrativo.
Grande crédito para esta escolha deve ser dado ao trabalho impecável dos seus protagonistas, especificamente a relação de Michel com a sua mulher Marie-Claire (ArianeAscaride). Este é um casal que já passou por muito e poderia refugiar-se na fúria em relação às injustiças nas suas vidas mas antes decidem concentrarem-se no que têm de bom. Tal como o filme em que habitam, são um casal de grandes ideias mas que, seduzidos pela nostalgia de um passado mais simples, se focam antes em abordar as complexidades do seu presente. “As Neves do Kilimanjaro” tinha tudo para se tornar uma obra de grandes demagogias, mas acaba por se assumir como um fresco de pequenas verdades. No fundo, as mais importantes.
O Melhor:A relação de Michel e Marie-Claire.
O Pior: Mais do que a felicidade do seu desfecho, os atalhos narrativos que o permitem.
| {module [298]} |
| Pedro Quedas |

