«Get the Gringo» (Apanha-me esse Gringo) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)
Se Portugal ainda tivesse um mercado de videoclubes ativo, e se o VOD realmente fosse dinamizado como deveria ser (os preços e a oferta no nosso país tornam este sistema dos menos apelativos), «Apanha-me esse Gringo» teria certamente tido um lançamento direto para essas plataformas, até porque no seu país de origem (EUA) assim o aconteceu. 
 
A realidade é que isto não significa que o filme seja mau para não merecer a atenção dos cinemas, mas ainda não é desta que Mel Gibson abandona a capa dos tablóides (eternos problemas com afirmações supostamente antissemitas) e regressa à 1ª divisão de Hollywood. 
 
Em «Apanha-me esse Gringo» a ação começa com um Mel Gibson a fugir junto à fronteira entre os EUA e o México. Perseguido pela polícia, ele passa para o lado mexicano e rapidamente é «absorvido» pelos agentes locais que, não só ficam com 2 milhões de dólares que transportava no seu carro, como também o colocam num presídio mexicano apelidado de «El Pueblito» (baseado numa prisão homónima que existe na região de Tijuana).
 
Esta prisão é como tantas outras que surgiram no cinema e na TV, onde são os presos que mandam, havendo uma forte ligação corrupta às autoridades locais. Neste espaço, que parece uma espécie de Sona (de «Prison Break») mais descontraída, estamos no submundo de uma cidade onde as hierarquias de poder se impõem. Enquanto estuda as regras e esqueleto da sua nova morada, Gibson trava amizade com um miúdo de 10 anos (Kevin Hernandez) que ambiciona matar o barão que controla todo o local, e que necessita da criança para um transplante de fígado. A partir daqui a ação desenrola-se em torno do dinheiro que Gibson tinha roubado e que entretanto está nos bolsos dos polícias corruptos. De um lado temos os verdadeiros donos do dinheiro que o querem recuperar (com destaque para Peter Stormare num pequeno papel). Do outro temos os barões do crime da prisão que entretanto tomaram consciência (via Gibson) da existência do dinheiro. Jogando com a oposição destas duas fações, Gibson vai comandando as operações de forma energética, ainda que seja visível a ausência de um dos elementos que sempre caracterizaram os seus trabalhos no género dos anos 80 e 90 (como em «Na Corda Bamba» e «Arma Mortífera»). Ao filme falta uma grande dose de humor e sinceramente esse é o seu maior pecado, pois se o australiano é perfeito na pele do típico anti-herói (que continua a fazer as suas trapaças mas a procurar proteger quem gosta), a ausência de situações humorísticas acabam por retirar fulgor à fita, que acaba assim por ser um trabalho de ação apenas rotineiro e com o típica visão «gringa» e preconceituosa do México (não é à toa o trabalho de cinematografia que dá um granulado pesado e sujo ao que assistimos). 
 
Ainda assim, há mérito na dinamização do espectador em acompanhar o desenlace de uma narrativa que se atreve a introduzir personagens já no terceiro ato. Aqui destaca-se a arrojada mas não ultra estilizada (excepção para a cena do tiroteio) realização de Adrian Grunberg (1º assistente de realização de «Apocalypto» [realizado por Gibson]) e o bom trabalho na banda-sonora de António Pinto – que dão ao filme um ambiente «cool» e melancólico a fazer lembrar o Mel Gibson de outros tempos… 
 
O Melhor: Gibson e o seu típico anti-herói 
O Pior: Falta humor
 
 
 Jorge Pereira
 

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