“Appaloosa” por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

A Oeste não há nada de novo, mas o que há até pode ser bem interessante de (re)ver. Este é o sentimento-mor neste “Appaloosa”, um Western de narrativa clássica que se distingue dos demais pela forma como as duas personagens centrais, Virgil Cole (Ed Harris) e Everett Hitch (Viggo Mortensen), comunicam entre si quando tem de lidar com um vilão bidimensional e uma manipuladora mulher (Renée Zellweger) que não sabe viver sem estar ao pé do líder da “manada”.

“Appaloosa” é uma cidade do velho oeste como tantas outra: próspera e fustigada por um criminoso (Irons) e seu bando que dominam tudo ao que à cidade diz respeito. Quando o xerife local é assassinado por Randall Bragg (Jeremy Irons), Ed Harris e Viggo Mortensen são chamados para leva-lo à justiça e fazer a lei.

Pelo meio aparece na cidade uma mulher que ganha a vida a tocar piano e, pasme-se, “sabe falar” e toma banho todos os dias antes de dormir. É assim que Cole – entretanto apaixonado por ela – a descreve, como que explicando a Everett porque razão se apaixonou por uma mulher que o manipula, que nitidamente não sabe viver sozinha e que precisa ter a seu lado o homem mais forte na hierarquia local.

É nas conversas entre Cole e Everett que o filme tem o seu maior trunfo, passando para uma segunda camada toda a acção em torno da perseguição a Bragg (Irons) – um vilão que não é o simples feio, porco e mau.

E é curioso seguir a carreira de Ed Harris, que depois de “Pollock” demonstra nesta obra – por vezes lírica e de confronto de um homem com a sua consciência – um sentido muito apurado na arte de realizar.

Mas este é um filme em torno dos diálogos e se há personagem que nos fascina é mesmo a de Everett. Por vezes ele nem precisa dizer absolutamente nada, pois a forma como Mortensen demonstra o que sente através de meras expressões, vale mais que mil palavras ou 200 segmentos de acção.

O acompanhamento visual que faz quando vê Allison French (Renée Zellweger) a chegar à cidade, e toda a sequência final são dos melhores momentos que o actor nos podia proporcionar. Até na cena em que “negoceia” a paz com um bando de índios, que se metem no meio da perseguição a Bragg, ele é genial – não pelo que diz mas pelo que demonstra.

Seria genial desconstruir este homem e entender como ele se tornou assim. Até porque no fundo não sabemos muito sobre as personagens que nos vão surgindo à frente.

Este não é assim um filme de desconstrucção de carácteres, nem tão pouco de revisitar as consciências de forma demasiado profunda. É um filme muito sensorial, de ambientes, de expressões e de algumas imagens e questões que não são normalmente vistas neste género.

Por essas razões, “Appoloosa” acaba por ser um trabalho diferente, não no formato e história, mas na maneira como esta última é encarada e filmada.

A ver

O Melhor: Viggo Mortensen. Genial
O Pior – Renée Zellweger. Diane Lane – por exemplo – faria definitivamente uma melhor personagem

A Base
“ Este não é assim um filme de desconstrucção de carácteres, nem tão pouco de revisitar as consciências de forma demasiado profunda. É um filme muito sensorial, de ambientes, de expressões e de algumas imagens e questões que não são normalmente vistas neste género. “…. 7/10

 

Jorge Pereira

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