“Última Parada 174” por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

 

 

“Autocarro 174” é mais um filme do já denominado cinema “favela” brasileiro.

Nele seguimos a história de Sandro, um jovem que viu a mãe ser morta, que se torna um menino de rua, que sobrevive à chacina da Candelária, que as ONGs tentaram ajudar, que cresce marginalizado, analfabeto e envolto na esperança que alguém um dia o ame, que se mete nas drogas (cola, maconha) e que, inevitavelmente, vai parar a prisões onde lida com outros jovens em situações semelhantes e que o recrutam para espirais de violência, crime e morte.

E tudo culmina no famoso caso do “Autocarro 174”, ocorrido em 2000 e que me lembro, por acaso, de ver em directo na TV. O tema e a forma como foi tratado interessou-me bastante, e quando José Padilha (realizador de “Tropa de Elite”) executou em 2002 um documentário sobre esse dia, não descansei enquanto não o vi.

A verdade é que Bruno Barreto, o cineasta envolvido nesta obra, tinha todos os ingredientes para fazer uma película memorável e até o consegue na forma caprichosa como interliga todas as personagens do filme. O problema é que todas estas são demasiado óbvias e unidimensionais para conseguirmos ter uma visão totalmente realista e crua sobre as condições sociais que levaram Sandro àquele destino.

Personagens como a fanática religiosa, a prostituta por quem ele se apaixona, os guardas-prisionais, o pastor, o marginal, são mais caricaturas que figuras reais.

E se isso funciona em “Slumdog Millionaire” – pelo tom fantasista, de fábula das slums e do “destino”, a forma como tudo se liga em “Autocarro 174” soa demasiado a recorrente e apressado.

Por isso, e se esperam outro “Cidade de Deus”, “Cidade dos Homens” ou, de certa maneira, um “Tropa de Elite”, vão sair um pouco desiludidos, pois o filme é melhor pelos problemas sociais que questiona do que, realmente, pelos actos e história que apresenta.

Uma nota final para as interpretações. Ao recorrer-se muitas vezes à tentativa de dar o tal tom real, contratam-se mesmo meninos de rua para fazer papeis cinematográficos. A verdade ganha, o cinema perde. Nada de grave, pois não é definitivamente por aí que o filme não atinge um patamar superior

De qualquer maneira, um filme a ver…

O Melhor: Os momentos da Candelária
O Pior : O filme vai perdendo fulgor à medida que avança

A Base
““Autocarro 174” é melhor pelos problemas sociais que questiona do que, realmente, pelos actos e história que apresenta. “…. 6/10
 
Jorge Pereira
 

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