«Watchmen» (Os Guardiões) por Filipe Carvalho

(Fotos: Divulgação)

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que li o “Watchmen” de Alan Moore, Dave Gibbons e John Higgins. Tinha 14 anos e estava em Londres de férias. Numa tarde, decidi ir à Virgin Megastore de Trafalgar Square passar tempo e, na secção de BD, deparei-me com um livro que tinha um smile estranho na capa, que me suscitou a curiosidade. Durante as próximas três horas, estive sentado no chão a ler o ” Watchmen ” com todo o afinco. Quando acabei, senti que me tinha faltado algo e que todo o enredo era algo de extraordinário que me obrigava a reler novamente. Por falta de tempo, não o fiz.

Dez anos mais tarde, e já depois de o reler várias vezes (3 vezes nos últimos seis meses, diga-se), olho para “Watchmen” um pouco como a série Lost: em cada episódio, há algo novo que me cativa. Alan Moore criou uma obra-prima da BD que tem a capacidade de criar tanto entusiasmo no leitor como se estivéssemos a ver um filme de Hitchcock.

Inicialmente publicada em doze volumes, durante 1986 até 1987, “Watchmen” é uma obra que tem a sua base no mítico escritor Alan Moore, autor de outras sagas conhecidas como V for Vendetta, From Hell, The League of Extraordinary Gentlemen, Miracleman, Swamp Thing. Em plena altura da Guerra Fria, Moore cria um universo distinto de super-heróis, em contraste com os apresentados pela DC Comics na altura, trazendo para a ficção as ansiedades e temores de uma guerra nuclear entre os EUA e a Rússia. Nesta realidade alternativa, os EUA, comandados por Nixon já no seu terceiro mandato, ganham a guerra do Vietnam graças a Dr. Manhattan – o único super-herói da história com poderes extraordinários – provocando uma tensão nos restantes países e aproximando o relógio nuclear da meia noite, ou seja, a destruição por armas nucleares.

Todo o enredo se centra no assassínio de um dos heróis, The Comedian, um sadístico e cínico ex-soldado ao serviço do Governo Americano, logo no ínicio da história. A sua morte passa ao lado de quase todos menos de Rorschach, um misterioso homem que usa uma máscara com símbolos simétricos que se alteram a toda a hora e que para quem a máxima é “Nunca se compremeter”, nem que para tal tenha de partir para a violência descontrolada de modo a arrancar informações ou a castigar quem comete crimes. Ao longo da história, vão sendo apresentadas outras personagens, desenvolvendo-se um enredo maior do que podemos alguma vez esperar. Não direi mais, porque a história merece ser lida com todo o interesse, sem ter ideias pré concebidas ou spoilers desnecessários.

Passando para o filme, confesso que quando ouvi que “Watchmen” ia ser adaptado ao cinema, pensei para mim: “Isto não vai correr bem. Há coisas que não devem ser mexidas”. O meu medo acentuou-se quando se confirmou que Zack Snyder seria o realizador, depois de nomes como Darren Aronofsky ( “The Wrestler“) ou Terry Gilliam (“Twelve Monkeys“) terem estado apontados para trabalhar na obra. Apesar do sucesso de “300 “, Snyder ainda não me tinha convencido como realizador. Agora podem dizer-me que visualmente “300” é fantástico mas para se realizar uma obra como “Watchmen” sempre pensei que seria necessário alguém com mais experiência no mundo do cinema.

Ora, posso dizer que me enganei redondamente. Zack Snyder fez um excelente trabalho de casa, percebendo claramente o potencial e o cerne de “Watchmen” e o que teria de fazer para levar a obra ao cinema. Não se deixando ficar apenas pelas imagens, o realizador soube como ser fiel à obra literária, mantendo a estrutura narrativa, os discursos partidos, os flashbacks constantes, as histórias paralelas que são a base do que Moore trouxe ao de cima com este livro.

Este seria talvez o seu maior desafio. Como trazer para o cinema uma história tão complexa como esta, onde tudo está misturado numa narrativa destruturada? Snyder optou pela opção inteligente. Deixar-se levar pelo livro e contar o máximo da história, naquilo que um filme de duas horas e meia o permite, sem perder o fio à meada, mantendo-se fiel ao aos temas políticos e sociais que o livro aborda, dando a sensação de que a época em que tudo se passa é de certo modo semelhante ao dos nossos dias, tal como no livro (esta é, para mim, uma das belezas deste livro. A sua actualidade permanece intacta, ainda por cima para um livro de ficção).

Dito isto, podíamos ter tido uma amálgama de pedaços de “Watchmen” como acontece na saga dos “X-men“, onde se tenta empacotar uma série de histórias numa só de modo a satisfazer os fãs. Mas no fim, o que saiu daqui é a melhor adaptação de uma obra de banda desenhada ao cinema, capaz de satisfazer os fãs acérrimos de BD, e para os que não conhecem o livro de certeza que fica a curiosidade intensa para o ler com outros olhos.

Graficamente, penso que melhor era impossível. A utilização das cores é perfeita, especialmente nas cenas em Marte (fantástico o aparecimento da fortaleza de vidro), bem como, na caracterização de Dr. Manhattan, com um azul intenso, onde todos os pormenores são visíveis, incluindo as inúmeras vezes que vemos a personagem despida em todo o seu pudor.

Também a caracterização das personagens assenta como uma luva. Nite Owl parece um Clark Kent panhonhas, Ozymandias um génio incompreendido e a cereja em cima do bolo, Jackie Earle Haley como Rosharch, perfeito na sua interpretação de um homem incompreendido que anda mergulhado no escuro da cidade de Nova Iorque, como se fosse um outsider que está atento ao que se passa à sua volta e que vai deixar tudo para trás em cacos para alcançar o que pretende. Jeffrey Dean Morgan como o Comediante, leva o prémio honroso com a sua interpretação de um Nick Fury completamente violento e que, no final de contas, é o único que consegue ver a piada mórbida da sociedade.

De um modo geral ,a adaptação de “Watchmen” é a melhor que podia haver, como referi em cima. Para os fãs mais dedicados, como eu, há partes que ficam para trás e que me deixam algo desgostoso mas, ao mesmo tempo, entendo que a transposição total do livro para cinema era impossível dada a sua complexidade.

O melhor está lá. Desde a fantástica cena inicial com a morte do Comediante enquanto ouvimos Frank Sinatra a cantar “Unforgettable”, passando pelas cenas de Rosharch no submundo do crime até à cena final, que também, apesar de não estar igual ao livro, se consegue encaixar no argumento como credível. O único senão é simplesmente a queda de intensidade a partir de meio do filme. Com um começo tão incrível, chegamos ao fim e parece que houve ali algo que se perdeu. Uma falha narrativa que faltou encaixar? Talvez.

Ainda uma última nota para a banda sonora constituída por Leonard Cohen, Bob Dylan e passando por Jimi Hendrix que funcionam como elementos integrantes do argumento, substituindo falas mas mantendo o mesmo efeito sentimental desejado. Dispensável, era a versão berrante de “Desolation Row” pelos My Chemical Romance. Há músicas com as quais não se devem brincar.

Assim sendo, resta-me dizer que é com com muito orgulho que ando com o meu pin do “Watchmen” no casaco e me lembro das palavras de Rosharch: “Never compromise. Not even in the face of Armageddon.”. Esperarei pelo DVD com todos os extras como uma criança em dia de Natal.

 

O Melhor: É a adaptação mais bem conseguida de uma obra complexa.

O Pior: A perda de ritmo a meio do filme que continua até ao fim

 

 

Filipe Carvalho

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