“Bella” por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

 

A primeira longa-metragem de Alejandro Gomez Monteverde, “Bella”, é dos filmes mais facilmente atacáveis que tive a oportunidade de ver nos últimos tempos. E na verdade até foi. O vencedor do prémio do público no Festival de Cinema de Toronto, em 2007, levou uma verdadeira enxurrada de pancada da crítica profissional americana que, constantemente se lembra que existe algo mais importante que tudo quando toca a falar de cinema: a politica e a eterna guerra entre liberais e republicanos.

Não foi, assim, de estranhar que o filme tenha sido avaliado como uma espécie de película anti-aborto pelos liberais e um drama intenso pelos republicanos, pois afinal de contas uma das suas personagens principais pondera tal opção.

Mas já voltamos aqui, vamos primeiro falar da história deste conto de fadas urbano.

José é um chefe de cozinha, filho de um porto-riquenho e de uma mexicana. Esse trabalho não era o seu sonho, mas um trágico acidente há uns anos tirou-lhe as hipóteses de assinar um contrato de sonho na liga americana de futebol (o soccer, como eles não se cansam em dizer).

Agora, e com uma feição carregada de mágoa e umas enormes barbas a lembrar um Cristo arrependido (ou um anarca do século XIX), José trabalha para o irmão num restaurante. Um dia, uma das empregadas desse restaurante, Nina, chega atrasada e é despedida pelo irmão. José não gosta e segue a jovem até que ela lhe explica o porquê dos atrasos. No fundo, ela está grávida e desamparada como está na sua vida, uma das atitudes que pondera tomar é abortar.

A partir daqui desenrola-se um enredo tocante e até telenovelesco mas que a meu ver é filmado com tal paixão por Monteverde que é impossível considerar isto um produto meramente para fazer chorar as pedras da calçada. No fundo temos duas pessoas que se vão unir, sem nunca existir uma tensão de romance entre eles, por diferentes razões. José procura redenção. Nina uma luz que a guie em frente na sua vida. “Bella” é literalmente o resultado.

Pelo meio temos um cineasta dividido entre uma Nova Iorque que o apaixona e uma cultura hispânica que nunca o larga. Não é à toa que muitas cenas do filme são quase experiências académicas de filmar algo que o cineasta considere belo e vivo. Seja um homem a arrumar os caixotes do lixo, seja um cego a perguntar como está o dia, seja um jantar tipicamente hispânico com a “novia” do filho mais novo.

E se querem que vos diga, nesta obra nem vale a pena pegar na temática supostamente anti-aborto que o filme tem. Nem estupidificar as personagens como alguns críticos fizeram num acesso de raiva, sabe-se la bem porquê – nesse aspecto, Robert Koehler da Variety bateu records olímpicos,. Que se seja contra fábulas urbanas, ou mesmo finais felizes como em “Slumdog” ainda se percebe. Vivemos num mundo de cínicos e os contos de fadas são esmagados pela pseudo-realidade que funciona como um destino. Agora, perguntar porque chegou Nina ao trabalho atrasada quando podia ter comprado o teste de gravidez e feito apenas o auto-exame depois do trabalho é, por demais, imbecil.

Este é um filme de pessoas que procuram um rumo para a sua vida. E por acaso encontram. O povo chora, os críticos dão a estalada do costume…

Eu digo. Sem ser um fascinante ou memorável produto cinematográfico, “Bella” merece sinceramente uma olhadela…

O melhor: Os momentos em que o realizador se perde a filmar a vida quotidiana das pessoas
O pior: A previsibilidade final e o look anarca-cristo-de-olhos-azuis de José. Demasiado carregado…

 

A Base
Este é um filme de pessoas que procuram um rumo para a sua vida (…) Sem ser um fascinante ou  memorável produto cinematografico, “Bella” merece sinceramente uma olhadela…. 6/10
 
Jorge Pereira

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