
Baseado na obra “Der Vorleser”, escrita pelo professor e juiz Bernhard Schlink, este “The Reader”, versão cinema, é uma das obras mais frustrantes da temporada.
E dizendo isto, faço já aqui uma ressalva: o filme não é mau, nem completamente mal dirigido ou actuado, simplesmente é extremamente desapontante assistir a uma tamanha paixão e sensualidade inicial que, rapidamente, se transformam num objecto inóquo, medroso e desprovido de verdadeiras emoções ou até sentido. E até na questão dos dilemas morais, que timidamente levanta – na relação moral/lei, na desvilanização das pessoas julgadas etc. – o filme nunca nos consegue prender ou dar muito que pensar.
No fundo, e tal como as suas personagens centrais, “The Reader” parece um filme constrangido e com medo de verdadeiramente tomar uma opção que seja.
A acção começa na Alemanha após a Segunda Grande Guerra Mundial quando o adolescente Michael Berg fica doente (escarlatina) e é ajudado por Hanna, uma estranha com o dobro da sua idade. Michael recupera entretanto e vai à procura de Hanna para agradecer. Rapidamente os dois envolvem-se num apaixonado, mas secreto caso amoroso, apenas interrompido quando Hanna desaparece sem deixar rasto.
Passado uns anos, e já quando Michael está na faculdade, ele descobre que Hanna era uma antiga guarda prisional das SS e que estava a ser julgada pelo envolvimento na morte de 300 judeus que estavam à sua responsabilidade.
É particularmente a partir desde momento, do julgamento, que o filme falha de maneira irreparável. Primeiro pela absurda tentativa de revelação de algo que já anteriormente tinha sido sublinhado em diversos momentos. Convenhamos, há certas regras em cinema e só os mais distraídos podem pensar que as coisas acontecem por acaso.
Quando no inicio Michael pergunta a Hanna o seu nome, ela faz uma cara tal que já sabemos que esconde algo. Depois disso, era de estranhar não a vermos falar com absolutamente mais ninguém. Não tinha amigos, familiares, nada. Finalmente, e para uma pessoa que gostava tanto de ouvir obras literárias, a cara que faz quando tem um menu pela frente, e tem de fazer um pedido num restaurante, responde logo ao que desde o inicio pensávamos. Isto parece algo irrelevante mas mais à frente é apresentado no filme – num dos momentos mais importantes – como uma grande revelação que lançaria uma dualidade moral e de sensações em relação à personagem. O problema é que já sabíamos. Isto não é novo para nós…
A partir daqui começam os problemas graves. O filme lança algumas boas achas para a fogueira, mas tem medo de as seguir. Lança a dualidade moral/lei. Lança uma mentira por vergonha de algo que não se percebe muito bem porque é vergonhoso.
Tudo isto são as falhas inevitáveis, numa produção que prefere mais ter o bom gosto e o “look Oscarizavel” a ser verdadeira e com personalidade .
No meio desta narrativa derscaracterizada anda um par de actores com um trabalho bem aceitável. Obviamente que Winslet é a que se destaca mais, mas esta não é de todo uma performance inesquecível ou insubstituível. E é mesmo justo dizer que a actriz britânica já merecia há muito mais tempo, e por outros papeis, o Oscar que provavelmente vai ganhar. Mas também não é novidade. Já estamos habituados a Oscars por retroactivos.
Já Daldry, o realizador, e depois de umas brilhantes “The Hours”, desta vez não teve o engenho de dar consistência ou força a um trabalho potencialmente único.
De todos os candidatos ao Oscar, este é sem dúvida o filme mais surpreendente da lista. Talvez esteja porque, tal como Benjamin Button, ou recorrendo a um filme mais antigo, “Beautiful Mind”, este é uma obra moldada em toda a linha e que grita pelo Prémio. O seu género não devia ser drama ou romance. Devia ser, “Dêem-me um Oscar”.
Por minha parte não o leva…
O Melhor – A primeira parte do filme, até Hanna desaparecer
O Pior – Hanna em tribunal. Muito pouco credível
| A Base |
| Esta é uma obra moldada em toda a linha e que grita pelo Prémio. O seu género não devia ser drama ou romance. Devia ser, “Dêem-me um Oscar”.…. 4/10 |
Jorge Pereira
Crítica por Rita Almeida (9/10)

