
Vamos ao óbvio: Mickey Rourke está de volta. Não há como evitar o soco no estômago que Rourke nos dá depois de vermos ” The Wrestler “, de Darren Aronofsky ( ” The Fountain “, ” Requiem for a Dream “, ” Pi “ ), onde desempenha o papel de Randy ” Ram ” Robinson , um lutador de wrestling com idade a mais que procura um sentido para a sua vida depois de inúmeras batalhas sangrentas.
Mas, se olharmos bem, será que podemos dizer que Rourke não está a desempenhar uma personagem mas sim ele próprio, durante os anos de exílio de Hollywood? A resposta é fácil: sim, podemos.
Estrela máxima dos anos 80, depois de filmes como ” Nine 1/2 Weeks “ e ” Rumble Fish “, Mickey Rourke perdeu-se no meio da fama e deixou-se ir para as más vidas que lhe levaram a glória, o dinheiro e os papéis de relevo. Como modo de sobrevivência, optou por voltar ao boxe, uma experiência que já tinha tentado quando era mais jovem mas que, desta vez, não lhe correu tão bem.
Como ainda hoje se nota, a sua cara sofreu vários traumatismos que o obrigaram a realizar operações plásticas de modo a manter uma aparência normal. O seu lento retorno só se faz em 2005 com o papel de Marv, em ” Sin City “, a adaptação da conceituada banda desenhada de Frank Miller.
Se havia dúvidas em relação à sua qualidade como actor basta ver ” The Wrestler “. Com uma interpretação profunda e uma caracterização excelente, Rourke vestiu a sua própria capa num filme quase biográfico que ainda conta com as participações das actrizes Evan Rachel Wood ( ” Thirteen” ) e Marisa Tomei ( ” Before The Devil Knows You’re Dead “ ).
Apesar de cenas que podem ser consideradas como violentas, essencialmente nos momentos em que Rourke combate nos ringues improvisados, o filme aborda a questão humana dos erros que se cometem ao longo da vida e das ligações que precisamos ter para sobrevivermos numa sociedade cada vez mais despreocupada com o próximo.
Com um estilo de filmagem muito diferente do excelente ” The Fountain “, Aronofsky opta por filmar grande parte do filme com a câmara ao ombro, dando movimento e intensidade ao filme, utilizando planos aproximados para demonstrar os sentimentos das personagens. Com este estilo específico, que tem traços de Gus Van Saant pelo meio, Aronofsky cria um fio condutor ao longo de todo o filme filmando todos os momentos de intimidade com uma força brutal, sabendo que apesar dos filmes serem algo ficcionado, têm como base a vida real.
Apesar de tudo, para os fãs de wrestling este poderá ser um filme ambíguo. Ao abordar esta modalidade desportiva, temos acesso a uma realidade única, talvez o aspecto mais interessante do filme a nível desportivo, no qual podemos presenciar que os combates são previamente combinados e estudados, com cada desportista a saber exactamente quando realizar um golpe específico ou quando deve cativar o público. Acima de tudo, trata-se de um espectáculo de entretenimento.
Outra curiosidade está no facto de que muitos dos extras são fãs reais de wrestling que Rourke e Aronosfsky angariaram em cada cidade onde filmaram, criando uma atmosfera muito mais realista durante os combates, como se pode ver pelos sinais de cartazes ou momentos reais do mundo do wrestling – como na cena onde um fã dá a Rourke a sua prótese de uma perna para atingir o adversário.
O desempenho dos actores já valeu a Marisa Tomei uma nomeação para Melhor Actriz Secundária nos Golden Globes deste ano, bem como para os Oscars de 2009, provando que continua a ser uma actriz de peso em Hollywood. Mickey Rourke está também nomeado para Melhor Actor deste ano e, para já, é o forte candidato a levar a estatueta para casa, depois de ter ganho o mesmo prémio nos Golden Globe, onde referiu que um grande apoio ao longo deste anos foram os seus cães. Um apoio interessante, sem dúvida.
Até agora, o filme tem sido bem recebido pela crítica internacional, bem como pelos profissionais de wrestling que consideraram o filme uma ” obra prima do nosso mundo “, como refere o mítico Rowdy Piper.
Esperamos que Portugal, habituado a grandes blockbusters com títulos sonantes, não fique à espera que ” The Wrestler “ saia das salas de cinema. Este é certamente um dos grandes filmes do ano e tendo em conta o baixo orçamento que teve, os minímos 40 dias de filmagem e as dificuldades óbvias em apostar num actor praticamente desaparecido, Aronofsky traz-nos uma excelente história humana, provando todos nós cometemos erros mas que sabemos como dar a volta por cima.
Como nota final, não se pode deixar de parte a banda sonora, de onde se destaca Bruce Springsteen com o tema do mesmo nome do filme. Não é por acaso que Randy ” Ram ” refere numa cena ” Fuckin’ 80’s man, best shit ever ! “.
9/10

