
O sexagenário Walter Vale é um professor do Secundário que sai relutantemente da sua vida monótona e solitária nos subúrbios para apresentar uma palestra em Nova Iorque. Aí, depara-se com um jovem casal de imigrantes ilegais, Tarek and Zainab, que ocuparam o seu apartamento. A compaixão de Walter, ao deixá-los permanecer, dá rapidamente lugar a uma amizade com Tarek, sob o olhar sempre desconfiado de Zainab. O escape das frustrações de Walter, até aí procurado em vão em aulas de piano, surge então no caloroso ritmo do tambor africano que Tarek começa a ensinar-lhe. Mas quando Tarek é repentinamente detido pelos serviços de imigração, Walter é a única pessoa que o pode ajudar. A chegada de Mouna, a bela mãe de Tarek, que vem à sua procura, envolve ainda mais Walter na resolução desta trama, à medida que se desenrola um romance improvável entre os dois.
O actor Richard Jenkins, cuja cara reconhecemos sobretudo pela actuação em papéis secundários, protagoniza aqui o viúvo Walter Vale com realismo e profundidade. Numa clara ironia ao título do filme, ele representa a verdadeira pessoa não integrada. A jornada de um homem resignado que finalmente se liberta e volta a despertar para os sentimentos é cativante. E é precisamente a merecida nomeação de Jenkins aos Oscars que traz esta película às nossas salas.
Mas o apurado retrato do indivíduo pela actuação está longe de ficar por aqui… O jovem Haaz Sleiman representa Tarek na perfeição, tendo até um percurso de vida semelhante. A belíssima Danai Gurira incorpora todas as subtilezas de uma “boa muçulmana” como é suposta ser Zainab. E ainda Hiam Abbass, como Mouna, a mãe contida mas assombrada pela preocupação e culpa pela situação do filho.
Também a música desempenha um papel importante no filme. Esta fortalece o contraste entre a acomodação inicial – representada pela frieza da música clássica – e a entrega à afirmação pessoal – representada pelo calor do instrumento de percussão. O elo de interligação emocional com o protagonista torna-se então quase palpável.
“The Visitor”, apesar de não muito badalado entre nós, já ganhou dez prémios e foi indicado para outros dez. Entre os prémios ganhos, destaca-se o de melhor actor para Richard Jenkins e o de melhor argumento original para Thomas McCarthy, atribuídos pela Satellite Awards; Spotlight Award para Richard Jenkins pela National Board of Review; melhor actor para Richard Jenkins no Moscow International Film Festival; melhor música pela St. Louis Gateway Film Critics Association; entre outros.
Cabe cada vez mais ao cinema independente explorar alguns temas da actualidade normalmente ignorados, através de um olhar perspicaz. É isso mesmo que faz “The Visitor”. Em vez de cingir-se ao cliché da questão política, prefere focar-se na falta de humanidade. A tónica é propositadamente posta num sentimento de injustiça geral, pondo em causa a forma como pessoas reais são lançadas pelo sistema em procedimentos burocráticos sombrios, anulando suas individualidades em nome da salvaguarda nacional. Mas desde que não haja resignação, este “pôr em causa” traz reflexão e esperança, o que é sempre gratificante. Muito gratificante.
8/10

