“Blindness” por Dinis M. Costa

 

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”

As obras de José Saramago são dotadas de uma originalidade indubitável, não só na pontuação, como na estranha omnipresença do narrador. O leitor é confrontado com um único texto, contínuo, onde personagens, narrador, juízos de valor, ditos populares, senso comum e misticismo se fundem, coexistindo num universo dominado por regras muito peculiares. Uma diversificada paleta de pontos de vista retrata assim um tema invariavelmente enigmático, misterioso, imaterial. Este “Ensaio sobre a Cegueira”, vencedor do Prémio Nobel da Literatura, é uma obra crua, extremamente coesa, focada nas invariabilidades emocionais da alma humana frente a uma situação extrema. O autor põe a descoberto a fragilidade do Homem, retirando-lhe o sentido mais precioso, a visão.

Em poucas palavras, “Ensaio sobre a Cegueira”conta a história de uma sociedade em declínio, sujeita a um flagelo de origem incógnita, denominado como cegueira branca. As personagens principais iniciam uma jornada através da escuridão luminosa, observadas, acompanhadas, orientadas por uma entidade isente à condicionante da cegueira, a mulher do médico. A esta é-lhe atribuído um pesado fardo: subsistir à perda da visão, para nos fornecer a nós, espectadores, um relato dos factos, das formas, dos destroços, da sujidade. Que seria de nós, animais rotineiros, comodistas, sem um percurso traçado, sem a imagem do caminho percorrido? Até onde vai a decência do Homem, banhado na decadência do seu mundo, onde as condicionantes básicas se fundem num mar branco?

O livro dispõe de uma extraordinária premissa, capaz de estimular uma boa construção cinematográfica: o quadro de uma sociedade habitada por cegos, perdidos nas ruas da sua cidade, caminhando entre o lixo de um mundo onde a palavra “aparência” perdeu sentido, dando lugar ao “desalento”. No entanto, seria necessário recorrer a um bom trabalho de adaptação, capaz de se afastar da obra original, sem perder o seu conteúdo, a sua essência. As obras de Saramago não valem pelas opções narrativas, pelos eventos descritos, mas sim pela forma como o escritor se entranha nas suas personagens, atribuindo-lhes um valor humano condicionado às variabilidades morais. “Ensaio sobre a Cegueira” não apresenta uma extraordinária história, pelo contrário, é simples, anti-climática, sem trunfos na manga… A escrita do autor sobrepõe-se à simplicidade dos factos narrados, projectando-nos através da sua maleabilidade literária.

O argumentista de “Blindness”, Don McKellar, limitou-se a representar os momentos chave do livro. O verdadeiro conteúdo esmorece, abrindo alas às avarezas técnicas do realizador. Nunca chega a existir um verdadeiro envolvimento com a principal elite de cegos, dando lugar a uma clara ausência de sentimento, de verdadeiro conteúdo. Desaparece Saramago, convertendo-se em Fernando Meirelles, perdido em decisões estilísticas que em nada favorecem o filme.

O realizador pega no relato mais visual da obra, expandindo-a por toda a tela, colocando-nos a nós, espectadores, frente a um mar branco. Recurso óbvio, e feio, destitui o filme de um ponto de vista realista. A verdadeira descida aos escombros, à ausência de higiene, à podridão nunca é patente, sendo destilada pela falta de crueza da fotografia. As cenas com maior intensidade dramática assomam de tempos em tempos, desenquadradas de um todo harmónico, aludindo a esse aroma sempre tão distante que nos remete a essas páginas outrora lidas com tanto gosto.

Com o elenco, esse, não posso discordar. Existe uma perfeita escolha de actores, contando-se com dois dos meus preferidos em toda a indústria cinematográfica: Julianne Moore e Mark Ruffalo. Um verdadeiro desperdício de talento, frente a obra tão desapaixonada…

A banda sonora, apesar de tudo, destaca-se pela positiva. Completamente desenquadrada do ambiente do filme, vai ao encontro de um elemento que o realizador tentou destacar: a multiculturalidade. Tal como no livro, o espaço não é referido, atribuindo a este pequeno grupo de cegos o ensejo de representar toda a humanidade. As nuances musicais variam numa constante através de uma utilização vasta de instrumentos musicais, como se todas as culturas celebrassem a cegueira de um mesmo modo. Por separado é bastante agradável, uma boa composição. Em relação com o filme, distraí, destacando-se das situações, realçando a seu ritmo desproporcional ao desencadear das imagens.

A minha reacção perante este filme é de pura tristeza. Nunca pela mediocridade de “Blindness”, mas sim pela sua associação inevitável à obra de José Saramago.

 

 3/10

Dinis M. Costa

 

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