Não é comum os documentários de longa duração utilizarem a animação como veiculo para contarem histórias baseadas em factos verídicos. Porém, essa foi a opção de Anca Damian, uma cineasta que através de diversos estilos de animação (desenhados à mão e por computador, usando técnicas 2D e 3D), fotografias e live action, conta a história de Cladiu Crulic, um romeno que viajou para a Polónia e acabou detido por um crime que alega não ter cometido. Após várias tentativas de contacto com o consulado romeno e do falhanço em ver a sua situação ser revista, Crulic entra numa greve de fome que levaria derradeiramente à sua morte.
É fácil compreender a vitória de «Crulic: The Path to Beyond» no Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy – um dos mais importantes no panorama mundial. A forma como está construído é visualmente estimulante, nunca aborrecida e entregue a uma linearidade do traço, ou estilo. Paralelamente a isto, acresce um enredo rico e socialmente relevante. Assim, resulta daqui uma força visual que acompanha uma história poderosa sobre imigração, questões judiciais, mas acima de tudo sobre o abandono a que estes migrantes estão entregues.
Tudo isto é apresentado por Damian sem grandes traços de manipulação, preferindo antes deixar fluir a sua história, sem carregar nos diversos pontos de indignação que esta possui e que podiam fazer o espectador e a obra entrarem em terrenos do melodrama superficial e chorão. Nasce assim um trabalho único e visualmente impactante que nem algumas sequências demasiado carregadas conseguem abalar. E embora não seja um filme que esteja aberto ao gosto de todos, é invariavelmente notório o esforço em contar uma história típica e até cliché de uma forma completamente afastada daquilo a que estamos habituados.
| Jorge Pereira |

