Festroia 2012: «Süskind» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)
Anne Frank não é a única história que merece ser contada no que toca a judeus afetados e perseguidos durante a 2ª Guerra Mundial nos Países Baixos. Há uns anos atrás, «Oorlogswinter – Winter in Wartime» mostrou que há muitas outras histórias e tragédias pessoais ocorridas na região que merecem destaque. «Suskind» é outro exemplo. 

Walter Süskind (interpretado por Jeroen Spitzenberger neste filme) salvou centenas de crianças da deportação durante a 2ª Grande Guerra Mundial. Na realidade, este judeu alemão radicado na Holanda era amigo do líder das SS em Amesterdão (Karl Markovic), o que não só o mantinha afastado de suspeitas como servia como colaboração para ocultar centenas de jovens judeus e evitar assim que fossem enviados para os campos de concentração. Mas a forma como os libertava dos nazis é mirabolante. Em 1942, os alemães converteram o Teatro Holandês Schouwburg numa prisão temporária. O Conselho empregou um gerente para a prisão e o escolhido foi Suskind. Durante os 18 meses que esteve no cargo, ele permitiu, com a ajuda de grupos de trabalhadores da resistência, salvar quase 1.000 crianças. O método envolvia sempre uma distração, que permitia que os jovens escapassem e se escondessem numa creche perto. Posteriormente, esses jovens seriam reencaminhados para “casas seguras” por toda a Holanda.
 
 

Realizado por Rudolf van den Berg, o cineasta responsável por “Tirza”, o filme que foi submetido pela Holanda aos Óscares de 2010, «Suskind» sofre de certa maneira com o facto de a sua história ser muito mais interessante que a transposição para o cinema. Ainda assim, este não é um «As Crianças de Paris» (La Rafle) e efetivamente existe um cuidado maior em não cair no estereótipo das personagens (bons vs maus) e dar algum sentido de globalidade e profundidade às personagens e à ação, criando assim um filme mais complexo, inspirador e com efetivas mais-valias. Aqui, destaque para ao bom trabalho de Guido van Gennep, um cinematografo habituado a trabalhar em cinema de terror («Two Staring Eyes» e «Saint») e que aqui consegue transportar outro género de horror para o carregamento gélido das imagens que trabalhou. Jeroen Spitsenberger e Karl Markovic cumprem no que toca à individualidade que oferecem ao filme, mas nunca excedem as capacidades das personagens, riquíssimas em ambiguidades e camadas de personalidade. O mesmo acontece com van den Berg, que de tanto respeitar os envolvidos, numa arrisca muito, permanecendo sempre demasiado sóbrio – algo que frequentemente acontece nesse género de histórias, obrigadas a prestar uma homenagem e dar fiabilidade às personagens reais. O problema disso é que a história normalmente trata os indivíduos de forma genérica, icónica, e nunca explora totalmente a pessoa em si, mas o impacto desta nos eventos. 

O resultado final é um filme razoável, que efetivamente homenageia uma pessoa fantástica, mas que não nos conta mais do que aquilo que já conhecemos do seu perfil exposto numa qualquer enciclopédia.
 
 
 Jorge Pereira
 

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