«Polvo», de Julio Hernández Cordón

(Fotos: Divulgação)

Conhecer Julio Hernández Cordón


Nascido há 37 anos nos EUA, Júlio Hernández Cordón é guatemalteco e viveu entre a Guatemala, México e Costa Rica. Deu nas vistas com o pungente e nocturno “Gasolina”, em 2007, vencedor do festival de San Sebastian, entre várias outras distinções. E firmou os seus créditos com “Las Marimbas del Infierno”, em 2010, uma “brincadeira” (segundo o próprio) filmada com os amigos, sem guião e muito pouco dinheiro, numa fusão da ficção com o documentário musical.
 
Isto já depois de ter escrito “Polvo”, em Paris nos ateliers da Residence Cinefondation, do festival de Cannes, em 2009. Uma produção que viria a obter financiamento pelo World Cinema Fund do festival de Berlim. Um filme de festival, sem dúvida. Ora, o desafio será quebrar essa barreira e captar a curiosidade do espectador. Não falta quem vaticine a Julio a inevitabilidade e os meios do cinema americano. Percebe-se melhor depois de vermos os seus filmes.


“Polvo”, de Julio Hernández Cordón
 
 
 
Um filme que evolui durante a rodagem de um documentário, uma ficção que espreita o mistério do passado. Dois homens, um procura saber o paradeiro do pai, desaparecido durante o conflito civil na Guatemala no início dos anos 80; outro segura a câmara e faz perguntas dolorosas ao outro: “quantas vezes se tentou suicidar?” Pois esse é o trauma de Juan, incapaz de viver no vazio. Ainda que Ignacio, o realizador no filme, sofra com a incerteza de esperar uma nova filha de uma outra ligação. O Polvo do título significa ‘poeira’, o pó do tempo, aquele que apaga, que esconde, mas também fabrica o caminho daquelas estradas de terra batida, onde se vinga, mas também se constrói. 
 
Para este filme, o realizador Julio Hernández Cordón revive o material documental que filmara sobre as mulheres indígenas que perderam os maridos durante a guerra. O resultado começa por se estranhar, antes de se entranhar. Desprovido de meios, convida-nos a embarcar nesta procura, descobrir estas famílias, conviver com uma vingança terrível e com a memória que persiste em ficar escondida pela poeira.
 
Ao contrário de “Gasolina”, quase todo filmado durante uma viagem adolescente ao fim da noite, em “Polvo” continuamos a viver nos cenários exteriores, ainda que totalmente diurnos, mas onde se percebem as linhas de comunhão. E onde a acção escorre com lentidão, como que a segurar o tempo. Em “Gasolina” quase nada acontece, até que acontece. Talvez por isso acabemos por ficar rendidos à densidade documental dos gestos e ações das personagens secundárias de Julio Hernández Cordón. Fixaram o nome?
 
 
 Paulo Portugal
 

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