«Margaret» por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

Poderíamos, com algum desconforto, afirmar que a história que conduziu este “Margaret” a uma sala de cinema seria mais interessante que a que o filme tem para contar. Ao longo dos últimos sete anos (as filmagens terminaram em 2005!), este segundo projeto de Kenneth Lonergan (autor de “Podes Contar Comigo”, uma das obras-primas esquecidas da década passada) passou de incrivelmente antecipado a objeto maldito, que passou por tribunais em vez de cinemas, e que viu dois dos seus produtores associados (Anthony Minghella, Sidney Pollack) morrer entretanto. A versão que nos surge é supostamente uma versão com meia hora cortada à visão inicial que Lonergan tentou vender, tendo sido montada por Thelma Schoonmaker e Martin Scorsese. 

Disse “poderíamos”, porque, apesar de tudo, “Margaret” é pelo menos tão ambicioso como foi problemático. Ao cronicar o dia a dia de uma adolescente nova-iorquina (Anna Paquin, ainda longe de se enfiar na cama com vampiros… ) após ter testemunhado um acidente no qual teve um papel crucial, o filme pretende ser uma grande ópera silenciosa sobre… passagens. Da juventude para a idade adulta, e de uma Nova Iorque (e uma América) ainda a tentar encontrar o seu lugar após o 11 de setembro. E se o vai conseguindo a pontos, e se a aparente desorganização e cortes abruptos acentuam mais que nunca uma humanidade que o filme bem pede, há também a sensação que o filme não nos consegue convocar emocionalmente como devia, metendo-nos sempre no papel de “críticos” (a cena final foi prova disso, pessoalmente). No fundo, estamos aqui num polo oposto ao que testemunhámos num “Extremamente Alto, Incrivelmente Perto”, mas em termos puramente qualitativos e de apreciação geral, não estamos assim tão longe.

Em qualquer dos casos, e tendo em conta todos os problemas de produção, não deixa de ser um pequeno milagre testemunhar este “Margaret” nas suas fascinantes imperfeições, e, por alguns instantes, sentirmos com vontade de dar razão às hipérboles escritas entretanto do outro lado do Atlântico…

O Melhor: Vermos finalmente o filme – ou uma versão dele, e constatar que não há aqui qualquer desastre.

O Pior: Não ser a ópera arrasadora que alguns apregoam, e que eu antecipava ainda assim.

 
 
 André Gonçalves

 

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