«Verbo»: o “puzzle incompleto” que tanto fascina como faz rir inadvertidamente

(Fotos: Divulgação)
«Verbo» é um filme difícil de avaliar pois se por um lado nos fascina o arrojo, a dissidência e a arrogância (que pode também ser considerada como defeito) do seu cineasta (em estreia nas longas metragens), o seu tom adolescente e conscientemente ingénuo – num estilo pós MTV fascinado com a cultura pop, o terror gótico , os comics e o anime – sufocam uma narrativa pobre em palavras, mas repleta de frases feitas. 
 
Vamos por partes.
 
Sara é uma jovem de 15 anos com um sexto sentido. Para ela o mundo não pode ser apenas isto e insiste que há algo mais, provavelmente escondido em mensagens que vão surgindo em graffitis pela sua zona e que apontam para um tal de Liriko (à primeira vista uma espécie de Banksy, pois desconhece-se quem seja). Empurrada pelo seu instinto de querer saber mais (já Neo de «matrix» sentia o mesmo)–  esta mulhere é consumida por essa procura de uma nova realidade, que até se podia considerar paralela, ou mesmo outra dimensão. Para chegara até lá, porque não o suicídio? Ora será esse impulso que a vai despertar e levar a conclusões sobre a sua posição no mundo.
 
Construído de forma visualmente estimulante, e muitas vezes pisando terrenos do anime, «Verbo» carrega em si uma tonelada de filosofia e metafísica barata que soa mais a slogan que a verdadeiras questões existenciais. Nesse caminho, o filme entra então numa linha neo-Matrix, mas fá-lo numa ode à rebeldia plastificada cyberpunk – onde não falta o Rap de consumo, o skate debaixo do braço, o graffiti como arma em de mensagem social e naturalmente uns ténis adidas (uma das marcas que se apropriou sabiamente deste segmento de rebeldia).
 
No meio disto tudo surgem alguns monólogos e diálogos risíveis (por vezes ridículos), mas que são capazes de prender a atenção dos menos experientes neste cinema de pessoas que não aparentemente não enquadram no sistema (mas que se cercam de produtos dentro dele para frisar a sua demarcação social). 
 
E é por estas razões que é complicado avaliar este filme, especialmente porque é uma primeira obra. Poucos são os que tentam criar trabalhos de dimensão existencial e com tamanho arrojo visual como Eduardo Chapero-Jackson o tentou, e ainda são menos os que sabendo que as palavras muitas vezes não casam com o visual, insistem nesse caminho profundamente dissidente. 
 
Concluindo, «Verbo» é como criar uma melodia com guitarras distorcidas. Nada soa ligar, mas o que ouvimos não se esquece e faz a diferença quando é tocado com alguma paixão. E essa falta de temor e excesso de amor de Chapero-Jackson faz deste jovem cineasta um nome a seguir.
 
 
 Jorge Pereira
 

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