Podiam ser «Os Mutantes» de Teresa Villaverde, mas as paisagens argentinas e o estilo western entre o poético, o mítico e o realista dão a este «Los Salvages» um tom muito próprio e uma bela estreia do argumentista Alejandro Fadel na realização – o mesmo que tantas vezes já trabalhou com Pablo Trapero, mas que nunca se colou ao estilo deste.
Aliás, se há mérito a dar, é que apesar de haver o toque de diversas obras (de «Kids-Miúdos» a «O Senhor das Moscas», passando por «Escolha Mortal» e «Fim de Semana Alucinante» e até lembrando alguns momentos contemplativos, míticos e místicos de «Last of Christeros» e «Apocalipse Now»), Fadel mantém uma linha muito própria.
Tudo começa num reformatório, onde cinco adolescentes preparam e conseguem criar uma fuga que os vai levar numa jornada por paisagens e locais desoladores e pobres. Pelo caminho eles pilham, caçam e matam para sobreviver, fazendo milhares de anos de evolução da humanidade nada valerem, já que estes jovens parecem homens das cavernas numa espécie de «Guerra do Fogo» contemporânea e cada vez mais cruel.
À medida que a história avança vamos também conhecendo um pouco mais das personagens, todas interpretadas por atores amadores (que ajudam no tom realista), mas não muito porque de certa maneira eles são – com excepção de um caso entre irmãos – desconhecidos unidos devido às circunstâncias. As separações, as quezílias internas e mais alguns elementos que são colocados no caminho destes jovens, onde até se inclui um assassinam oculto, dão uma maior densidade a este «Los Salvages».
Fadel cria assim uma obra de diversas dimensões, ainda que nem todas tenham o interesse particular para nos fazer embrenhar na história. A isso ajuda a separação do grupo, que afasta personagens do centro da ação, e retira alguma empatia. Aliás, as emoções dos relacionamentos parecem ser forçosamente afastadas, para permitir o tal estado bruto, cru, amoral da narrativa e personagem, – que ainda tem tempo para tocar o onirismo no final.
Um bom inicio de carreira para Fadel, realizador, mas existem ainda algumas pontas na história que poderiam ser limadas, pois representam elementos mais redundantes que contundentes.
| Jorge Pereira |

