Cannes 2012: «Los Salvages» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Podiam ser «Os Mutantes» de Teresa Villaverde, mas as paisagens argentinas e o estilo western entre o poético, o mítico e o realista dão a este «Los Salvages» um tom muito próprio e uma bela estreia do argumentista Alejandro Fadel na realização – o mesmo que tantas vezes já trabalhou com Pablo Trapero, mas que nunca se colou ao estilo deste.
 
Aliás, se há mérito a dar, é que apesar de haver o toque de diversas obras (de «Kids-Miúdos»«O Senhor das Moscas», passando por «Escolha Mortal» e «Fim de Semana Alucinante» e até lembrando alguns momentos contemplativos, míticos e místicos de «Last of Christeros» e «Apocalipse Now»), Fadel mantém uma linha muito própria. 
 
Tudo começa num reformatório, onde cinco adolescentes preparam e conseguem criar uma fuga que os vai levar numa jornada por paisagens e locais desoladores e pobres. Pelo caminho eles pilham, caçam e matam para sobreviver, fazendo milhares de anos de evolução da humanidade nada valerem, já que estes jovens parecem homens das cavernas numa espécie de «Guerra do Fogo» contemporânea e cada vez mais cruel. 
 
À medida que a história avança vamos também conhecendo um pouco mais das personagens, todas interpretadas por atores amadores (que ajudam no tom realista), mas não muito porque de certa maneira eles são – com excepção de um caso entre irmãos – desconhecidos unidos devido às circunstâncias. As separações, as quezílias internas e mais alguns elementos que são colocados no caminho destes jovens, onde até se inclui um assassinam oculto, dão uma maior densidade a este «Los Salvages».
 
Fadel cria assim uma obra de diversas dimensões, ainda que nem todas tenham o interesse particular para nos fazer embrenhar na história. A isso ajuda a separação do grupo, que afasta personagens do centro da ação, e retira alguma empatia. Aliás, as emoções dos relacionamentos parecem ser forçosamente afastadas, para permitir o tal estado bruto, cru, amoral da narrativa e personagem, – que ainda tem tempo para tocar o onirismo no final.
 
Um bom inicio de carreira para Fadel, realizador, mas existem ainda algumas pontas na história que poderiam ser limadas, pois representam elementos mais redundantes que contundentes. 
 
 
 Jorge Pereira
 

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