A vida não é uma novela mas às vezes é preciso que se viva numa para podermos sonhar e sair daquilo que temos. Assim diz uma das personagens de «A Novela das Oito», um filme brasileiro assinado por Odilon Rocha e que à sua maneira faz um tributo às telenovelas recorrendo aos seus próprios clichés para contar uma história dura e passada na ditadura.
Amanda é uma prostituta de luxo habituada a receber banqueiros, homens de negócios e policias no seu modesto apartamento que ela trata com todo o glamour. Um dia, um cliente seu provoca uma reação bizarra na sua emprega, Dora, uma mulher que esconde um passado e que não consegue aguentar ver aquele homem no apartamento da patroa. O polícia acaba por falecer e ambas decidem esconder o corpo, ficar com o dinheiro que ele tinha e partir para o Rio de Janeiro. É aí que Dora revisita o seu passado e que até envolve um filho que não faz a mínima ideia que ela é a sua mãe. Paralelamente, seguimos ainda a história do filho, um rapaz que é vitima de assédio por parte dos colegas da escola e que todos gozam pelo seu jeito «menina».
Depois há ainda o lado policial de caça aos «vermelhos» e tudo isto tendo como pano de fundo um Brasil que se separava ideologicamente, mas que praticamente se unia e parava para ver a novela das oito (na altura «Dancin Days»).
Qualquer português que assista a esta obra vai lembrar-se da nossa série «Conta-me com foi», nem que seja pelo ambiente politico similar (ditadura), mas também por algumas peculiaridades da época e eternos conflitos de gerações. Ainda assim, «A Novela das Oito» acaba por ser um pouco sufocante e apressada nas histórias que quer contar em tão pouco tempo de duração (história politica, o tema da homossexualidade, o abandono, idealismo, etc…), sendo na evolução dos eventos que se sente mais isso. Por isso, e apesar de ser um filme que entretém e que nos conta uma parte importante da história do Brasil, há muito pouco tempo para aprofundar nas personagens, acabando estas por serem apenas estereótipos e caricaturas (como normalmente acontece nas telenovelas), do que personagens que possuem várias camadas para analisar.
Ainda assim há vários detalhes bem conseguidos e uma boa prestação por parte dos seus atores, destacando-se Claudia Ohana no tom dramático e Vanessa Giácomo como a louca sonhadora que atenua o drama global (e funciona mesmo como o comic relief da trama).
| Jorge Pereira |

