«L’Age Atomique» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Depois de causar algum frisson no Festival de Angiers, «Atomic Age» (L’Age Atomique) conquistou o prestigiado Prémio FIPRESCI, atribuído pela critica internacional no Festival de Berlim (Secção Panorama).

Em apenas uma hora e oito minutos, o filme segue dois jovens – Victor (Eliott Paquet) e Rainer (Dominik Wojcik) – numa saída à noite que começa num comboio, a caminho de Paris. É ao sabor da bebida que começam os primeiros diálogos deste filme, todos trabalhados de uma forma poética e sempre em torno do que sentem em relação ao mundo (e o seu papel nele).Na realidade, ambos são o que se chama almas gémeas, mas apesar deste ser um filme que deverá atrair a atenção de festivais de cinema LGBT, a verdade é que a ligação entre estes dois não é amorosa, ou sexual, mas acima de tudo existencial e de estado de espirito.

Assim, e numa primeira fase, assistimos aos dois, numa discoteca, a serem rejeitados e a rejeitar eventuais parceir@s, sempre com diálogos cativantes e que facilmente prendem a atenção do espectador, especialmente se estes forem hipsters – que vão encontrar neste filme uma forma de auto projeção.

Claro está que a interpretação dessas mesmas conversas soará presunçosa, mas o filme é tão centrado no microcosmos deste duo, e os mecanismos artificiais são tão focalizados, que o espectador esquece um pouco isso e deixa-se enfeitiçar por esta obra. Neste ponto, destaque para o trabalho da cinematografia (Hélène Louvart) e da realização (Héléna Klotz), muito competentes e que nos colocam imersos naquele ambiente de contemplação, introspeção, mas sem nunca esquecer um lado mais comercial e atrativo para as audiências menos habituadas ao cinema arthouse.

E à medida que a noite avança, e entre atos de verdadeiro snobismo (roubar um casaco, gozar com os miúdos ricos e ameaçar o porteiro de uma discoteca), os dois vão expondo as suas fraquezas interiores e um estranho estado de solidão que só a presença de um ou do outro corrigem. E será isso mesmo que descobrem na sua caminha noturna pela floresta.

 
 
 Jorge Pereira
 

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