Curtas Vila do Conde: «The Invader» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)
 
Basta olhar para o início de «The Invader» para perceber que vamos estar muito longe de um filme sobre os dramas da emigração ilegal, como por exemplo «The Color of The Ocean», fita presente no passado Festival de Toronto.
 
Assim, o primeiro plano aponta para uma mulher completamente nua numa praia. De repente ela levanta-se e começa a andar em direcção a algo. A câmara acompanha-a e percebemos que estamos numa praia de naturismo e que ela se dirige para dois corpos que estão a chegar do mar. (esta cena pode ser vista no trailer abaixo).

 
 
Esta sequência avisa logo que não estaremos perante o filme normal sobre a emigração africana para a Europa.  
 
Nicolas Provost, o realizador, demonstra logo aqui alguns dos tiques de artista visual que é, tendo mesmo muitas das suas curtas-metragens chegado ao IndieLisboa ao longo dos anos. 
 
Já nesta primeira incursão nas longas-metragens, Provost aliou-se aos argumentistas Giordano Gederlini e François Pirot, criando um trabalho com algum impacto, ainda que derradeiramente se perca nos objectivos ou tarde demasiado em defini-los e expo-los. 
 
Em «The Invader» seguimos Amadou (Issaka Sawadogo), um emigrante ilegal que trabalha na construção civil para um homem com diversos negócios ilegais e que abusa dos seus trabalhadores. O filme explica muito pouco sobre o contexto, mas nós percebemos facilmente como tudo se processa. É uma história antiga, a do patrão explorador que pela ganância é capaz de tudo. Porém, Amadou não vai aguentar a situação, especialmente depois de um amigo ser expulso (para parte incerta) por estar doente..

 

Numa primeira fase, Amadou foge de cena, vagueando pela cidade sem grande destino. Um dia, quando regressa a casa do seu antigo patrão, ele «tropeça» em Agnes, uma mulher sem papas na língua e que abomina o trabalho executado pelo antigo patrão de Amadou. Este assiste a uma discussão entre eles e a partir daí decide seguir a mulher (Stefania Rocca), conseguindo mais tarde seduzi-la. A partir daqui começamos a entender um pouco mais o que move esta personagem (Amadou), sedenta de finalmente marcar o seu espaço e arranjar uma vida para si mesmo.
 
Com um visual apurado contrabalançado por um guião na maioria das vezes rico, que foge a clichés vários e moralismos impostos, este «The Invader» acaba por ser um filme sobre a ambição e ansiedade de um homem a querer marcar o seu espaço, criar um território próprio, uma identidade fora da ilegalidade, e isto sempre fugindo aos lugares comuns. Para chegar até aqui, realce para a boa prestação de Issaka Sawadogo, que com o apoio de Provost consegue criar uma personagem que tende sempre para o realismo, mesmo quando o filme ensaia combinar o thriller urbano com o drama intrínseco.
 
 
O Melhor: A tentativa de criar um drama da emigração ilegal com outro género de trama que fuja dos clichés habituais
 
O Pior: A procura do realismo fugindo ao cliché e a ausência de uma opinião formal atira o destino das personagens para um certo fatalismo o que erradamente dá a sensação de que não tinham poder para mudar a sua sorte madrasta.
 
 
 Jorge Pereira

 

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