De Rear Window, de Alfred Hitchcock, a Blow-Up, de Michelangelo Antonioni, passando por Peeping Tom, de Michael Powell, ou The Eyes of Laura Mars, de Irvin Kershner, o cinema já demonstrou por diversas vezes o seu interesse em olhar para a figura daquele que observa através de uma lente para transformar a vida dos outros em imagem — e, nesse gesto, acaba por revelar a sua própria solidão ou culpa.
Situado na Londres da atualidade, Rain Catcher, primeira longa-metragem de Michele Fiascaris, em competição na secção Proxima de Karlovy Vary, até se espalha ao comprido na concretização das suas intenções, mas contém ainda assim matéria suficientemente interessante, que vai além da recriação conceptual derivativa, na construção deste neo-noir onde o voyeurismo e a criação artística se confrontam.
No centro da história está Miles (Dudley O’Shaughnessy), um fotógrafo de rua, estrela nas redes sociais, que assina como Rain Catcher. Dizer que o seu trabalho é moralmente duvidoso é eufemismo, pois fotografa pessoas comuns sem consentimento, muitas vezes em momentos vulneráveis, recorrendo a teleobjetivas capazes de invadir a privacidade alheia. Ele acredita que essa é a única maneira de captar a autenticidade do ser humano, mas rapidamente entra num jogo do gato e do rato, com muita paranoia à mistura, quando uma operação falha, começa a ver uma mulher misteriosa em várias das suas fotografias e imagens clandestinas do próprio Miles passam a aparecer online e pelo bairro.
Deixando espaço para ambiguidades, quer na construção da figura do Rain Catcher, quer na dúvida entre realidade e imaginação do próprio fotógrafo perante a intriga, Fiascaris, com o apoio da fotografia de Evgeny Sinelnikov, encontra no Barbican londrino uma geometria brutalista e impessoal, onde passagens, vidros e superfícies devolvem sempre o olhar a quem observa. Cria-se assim um labirinto claustrofóbico de reflexos, num ambiente de sufoco que muitas vezes só peca pela repetição, pela acumulação de sinais, símbolos e pesadelos, até quase se perder na própria mise-en-scène.
Com algo — no espírito — de um Christopher Nolan em início de carreira (o de Following), Fiascaris, que escreve o argumento com Filippo Polesel a partir da própria curta que assinou em 2018, consegue assim produzir uma intriga que prende o espectador durante toda a sua duração, ainda que demonstre falta de pulso para manter o ritmo constante e impedir que algumas imagens que produz se tornem mais insistentes do que perturbadoras.
Mas, ainda assim, Rain Catcher tem qualquer coisa. Não é apenas o exercício derivativo que poderia ser, nem apenas mais um thriller sobre um artista perdido na própria obsessão. O seu grande interesse está em olhar para essa zona moral contaminada e fazer de cada fotografia que Miles tira não apenas uma invasão da intimidade alheia, mas também um espelho da sua própria culpa.







