Quando assumiu uma cadeira no júri da Berlinale 2024, sob a presidência de Lupita Nyong’o, o catalão Albert Serra foi questionado por uma jornalista acerca de um comentário simpatizante à Rússia de Putin numa entrevista no passado, o que o levou a reagir abrasivamente: “Leu a entrevista toda? Deveria”. Soa reativa também a decisão dele de filmar “Out Of This World”, uma ficção com Kristen Stewart, Riley Keough e F. Murray Abraham sobre mobilizações de entidades americanas para acabar com a guerra na Ucrânia. É o primeiro projeto dele após a consagração de “Tardes de Soledad” (Tardes de Solidão), estreia do realizador de “História da Minha Morte” (Leopardo de Ouro de Locarno em 2013) na vereda dos documentários.
“Não fazia ideia do que fazer com esse registo narrativo, num primeiro momento, por não ter intimidade com a estética documental, até que comecei a pensar na engenharia de som do espaço de uma arena e na maneira como distribuir a câmara para registar a ação”, disse Serra ao C7 em San Sebastián, onde ganhou a Concha de Ouro de 2024 com a sua imersão às touradas e aos bastidores de uma prática hoje mundialmente condenada pela barbárie contra animais, mas ainda celebrada por parte da Espanha como um património cultural. “Filmei sem romancear aquele costume”.

Encarado desde a sua primeira exibição pública, em setembro passado, em Donostia, como um gesto de ousadia e um convite à provocação, “Tardes de Soledad” fez jus à controvérsia que despertou ao ganhar a capa da revista “Cahiers du Cinéma” de março, pela sua excelência de linguagem. Venceu uma acirradíssima disputa no País Basco com um objeto de estudo dos mais indigestos para os novos tempos. Ao seguir o dia a dia de um toureiro peruano visto como celebridade no ofício, Andrés Roca Rey, o realizador de filmes de culto como “A Morte de Luís XIV” (produção de 2016) combate o machismo e também a naturalização da violência contra os animais inerentes àquela tradição ibérica. Sagrou-se vencedor de um evento que falou de finitudes (de corpos idosos, de velhos costumes) do começo a fim.
“Uma vez que o meu diretor de fotografia, Artur Tort, também é um montador, tive a hipótese de explorar as imagens que rodamos com respeito à solidão das pessoas que estão nas arenas de touros”, disse Serra em resposta ao C7nema em San Sebastián.
Serra nunca havia feito uma longa-metragem de não ficção antes. Sem fazer juízos de valor, esse artesão da imagem regista uma série de “combates” travados por Roca Rey. Em planos longos, com muitos closes, o diretor desconstrói o simbolismo de virilidade que cerca os toureiros, captando frases de fãs como “os seus colhões são maiores do que essa praça”, que, ouvidas no contexto estético do longa, ganham tom irónico.
“Tenho formas de pensar a linguagem que passam por uma herança do meu país nas telas”, disse Serra. “Sou, sim, um cineasta espanhol, pela minha génese pessoal, mas o meu cinema não está preso a paradigmas nacionais, nascendo de uma troca com outras pátrias, no desejo de expressar o mundo a partir de uma inquietação formal que não se defina meramente pela palavra, ainda que esta, quando aparece em cena, tem relevância, um sentido, um efeito”.
As páginas da “Cahiers du Cinéma” de março analisam a forma peculiar de criação de Serra, na ficção. “Eu não trabalho o argumento com os atores”, disse o cineasta em San Sebastián. “Converso com eles, cena a cena, para tentar que eles se guiem pelo sentimento que cada sequência proposta sugere”.






