Cumpridos os seus afazeres com a Mostra de São Paulo, a última das suas plataformas lusófonas antes da pré-estreia em Portugal, o filme O Riso e a Faca candidata-se, enfim, à apreciação do circuito comercial lusitano, após um périplo mundial iniciado em Cannes, em maio.
“Este filme, que tem uma equipa brasileira grande, trata da História sob o prisma do que nos une e do que nos desune”, disse Pinho ao C7nema, no hotel Fairmont, no Rio de Janeiro, entre balanços das suas descobertas e antecipações de projetos em curso.
Distinguido na Quinzaine des Cinéastes de 2017 com o Prémio FIPRESCI pela fina mescla de linguagens de A Fábrica de Nada (2017) — um trânsito entre o musical e o documental —, Pinho leva aos cinemas do seu país natal uma saga de proporções épicas, que atravessa continentes na esteira de uma língua errante. Há cinco meses, O Riso e a Faca espalhou os seus 211 minutos pelo Palais des Festivals, reunindo talentos de Portugal, França, Roménia, vários países africanos e do Brasil. A fotografia de Ivo Lopes Araújo, artista visual cearense, conquistou aplausos e fãs para a longa-metragem, que tem o título internacional I Only Rest in the Storm.

O nome original, O Riso e a Faca, parte de uma canção homónima do músico, cantor e compositor baiano Tom Zé. É um título que traduz os extremos de uma aventura existencialista filmada na Guiné-Bissau e no deserto da Mauritânia, entre fevereiro de 2022 e janeiro de 2024. Além das produtoras portuguesas Uma Pedra no Sapato e Terratreme, a película conta com a coprodução brasileira da Bubbles Project, de Tatiana Leite, e com distribuição no Brasil pela Vitrine Filmes.
O argumento constrói-se a partir do périplo do engenheiro ambiental Sérgio, um português que viaja para uma metrópole na África Ocidental, onde vai trabalhar num projeto rodoviário entre o deserto e a selva. Lá, desenvolve uma relação íntima com duas habitantes locais, Diára e Gui. No trio de protagonistas está o brasileiro Jonathan Guilherme — ex-atleta de voleibol que trocou as quadras pela arte e vive atualmente em Barcelona —, que interpreta Gui. Contracena com o português Sérgio Coragem (conhecido por papéis em Verão Danado (2017) e Fogo-Fátuo (2022)) e com a cabo-verdiana Cleo Diára (de Diamantino (2018)), distinguida em Cannes com o Prémio de Interpretação.
Num somatório de entrevistas ao C7nema, Pinho reflete sobre o seu processo criativo e as tensões do Velho Mundo.
De que forma a sua experiência com o documentário, que atravessa elementos de não-ficção em A Fábrica de Nada (2017), influenciou O Riso e a Faca (2025) na forma como olha para os territórios?
Aprendi um pouco a filmar na cama do documentário, numa metodologia de rodagem que opera sobre o mise en situation e não sobre o mise-en-scène da ficção, procurando uma sensação de verdade ao improvisar sobre o que é dado como pré-estabelecido. Criamos as cores do mundo no processo de filmar, sem saber exatamente o que vamos dizer.
O Riso e a Faca (2025) foi um dos filmes lusófonos de maior expressão em sala nos festivais de 2025, o que pode ampliar a sua carreira nas salas comerciais. Críticos do mundo inteiro saudaram-no, em especial aqueles que definiram A Fábrica de Nada (2017) como obra-prima. Mas como foi a relação do público português com um filme de 177 minutos que mistura os mais variados géneros para retratar as falências europeias?
Na altura fizemos cerca de 10 mil espectadores, o que é um sucesso para o padrão do circuito português, sobretudo na linha dos filmes de autor e, ainda mais, se avaliares a nossa duração. Existem 10. milhões de portugueses no meu país, cada um com uma necessidade e uma experiência pessoal muito particular com o mundo operário. Desde o momento em que escrevemos o argumento de A Fábrica de Nada (2017) até à sua estreia no Brasil, em 2018, uma série de problemas de desajuste social que estavam a acontecer em Portugal agravou-se. E não foi só no meu país. Todas as aberrações políticas que ganharam peso nos últimos anos, como Donald Trump e Bolsonaro, tiveram as suas dimensões ampliadas. Daí eu ter, naquele momento, uma história em que o crescimento da economia gera loucura coletiva.

Que ideia de nação, na perspetiva dessa loucura supracitada, impulsiona O Riso e a Faca (2025)?
A palavra “nação”, de certa forma, remete-me à primeira fase da criação de uma estrutura que se impõe aos países durante o processo colonial. A História que se constrói a partir daí é uma armadilha, porque é uma História deturpada.
Sob essa ótica, de que maneira uma saga sobre a busca de identidade o transforma na relação com a sua “lusitanidade” e com o passado colonial a ela inerente?
Ela ainda está a transformar-me, numa dinâmica que foi iniciada na troca com o elenco e com as paisagens. Na superação da identidade, tento questionar o que nos foi dado à nascença. Filmo para participar no processo de saber o que é isso que dizem que eu sou.
É difícil ver O Riso e a Faca (2025) sem pensar em The Sheltering Sky (1990), de Bertolucci, na sua forma épica de contrastar as geografias naturais e humanas. Seja esse filme dos anos noventa parte ou não da sua genealogia, fica a pergunta acerca do espaço: de que maneira o espaço se transforma em personagem neste filme?
Não vi esse filme, mas é um facto que a geografia é uma personagem, pois a narrativa parte da paisagem e da mudança histórica provocada pela ação humana neste mundo. O filme é influenciado por quatro paisagens: deserto, cidade, floresta e ilhas.
Embora O Riso e a Faca (2025) seja uma empreitada de encontros e de alianças, é um filme onde a solidão espreita as personagens. De que maneira essa condição solitária se reflete no projeto, na realização e numa produção casada com o Brasil, através da Bubbles de Tatiana Leite, repleta de parcerias de prestígio com nações estrangeiras?
Preciso de citar ainda a Geba Filmes e a Maison des Cinéastes, que nos abriram portas para, por exemplo, termos acesso à Guiné-Bissau. Nessa lógica da solidão, tivemos aqui uma coprodução rara, em que houve uma cooperação real de todos os envolvidos. Quando fundámos a Terratreme, a ideia já era trabalhar em conjunto.
Na tua conceção dramatúrgica, que arquétipos norteiam O Riso e a Faca (2025) na criação das personagens?
Este é um filme de aventura, de encontros e de desejos, que procura entender como o corpo incorpora um conjunto de injustiças históricas. Não sei definir que arquétipos são, mas sei que são personagens em trânsito, em deslocamento.
Como é que Ivo Lopes Araújo, hoje um dos mais requisitados diretores de fotografia do Brasil, mais colaborou para a consolidação da imagem que O Riso e a Faca (2025) tem, sem retirar a identidade autoral que o seu cinema traz de A Fábrica de Nada (2017)?
Conheci o Ivo por meio da mãe do meu filho e temos uma química. Eu, que sou um eterno apaixonado pela Mauritânia, mostrei-lhe uma cantora de lá, Dimi Mint Abba, e ele ficou encantado com ela. Combinámos fazer uma viagem pelo Saara um dia. Ou seja, temos uma cumplicidade que vai além das coproduções e dos contratos de trabalho, que tem a ver com a nossa visão do mundo.
Em que deslocamento O Riso e a Faca (2025) o coloca? Qual é a sua fricção?
A minha fricção vem do facto de todos os meus filmes passarem pelo mesmo tema: a Europa. Uma Europa vista a partir de uma certa ideia moral de branquitude que nos tentam impor culturalmente.
Como avalia o atual sistema de produção cinematográfica de Portugal?
Como Portugal não tem um mercado de vulto industrial no Cinema, capaz de produzir blockbusters como os americanos, mais vale para os nossos realizadores a licença de poder experimentar. O nosso sistema de financiamento concorda com isso e dá liberdade total aos cineastas para criar.
Qual será o seu próximo projeto?
Estou a trabalhar em dois projetos. Um deles é um remake do João César Monteiro, do seu À Flor do Mar (1986). O outro é um projeto meu com a Filipa Reis sobre uma geração de estudantes de arte na casa dos 20 anos, numa Lisboa dominada pelo capitalismo. É um pouco o reflexo do que eu fui quando tinha 20 e poucos anos. Mar da Palha é o título provisório.






