Filme sensação da Berlinale em 2023, parte integrante da corrida ao Lince de Ouro no Fest em Espinho e vencedor da Festa do Cinema Italiano, “Disco Boy” vai chegar (finalmente) às salas de cinema portuguesas a 24 de outubro.

Primeira longa-metragem de ficção de Giacomo Abbruzzese, “Disco Boy” segue de perto Aleksei/Alex (Franz Rogowski), um imigrante bielorrusso ilegal em Paris, que para conseguir a cidadania alista-se na Legião Estrangeira. É ao serviço desse ramo do serviço militar do Exército Francês, que ele é enviado para a Nigéria, onde vai se digladiar contra Jomo (Morr Ndiaye), um homem que defende o seu delta da exploração neocolonial gaulesa.
Atravessando o trilho das marcas no subconsciente que os traumas deixados pela guerra deixam nestes soldados, “Disco Boy” progressivamente vai deixando uma forma naturalista para entrar no terreno do místico, particularmente quando Alex começa a ficar obcecado com uma mulher (Laetitia Ky) e a sua dança, que vê pela primeira vez num clube exclusivo. “De certa maneira sinto que é um filme radical. Não sou político, não procuro consensos. Fiz algo honesto, em que acredito”, disse o cineasta ao C7nema, momentos depois de uma estreia que não deixou ninguém indiferente. “Fiz muita pesquisa e nela, por exemplo, vi alguns espetáculos de dança nigerianos. Percebi que eu e muitos desses espetáculos estávamos a falar do mesmo: fantasmas, reencarnação, traumas. Tivemos vários conselheiros, da Nigéria à Bielorrússia, passando por militares da Legião Francesa”.
Esteticamente poderoso, o filme contou com a direção de fotografia da aclamada Hélène Louvart, com a qual Giacomo adorou trabalhar: “A Hélène Louvart, em termos de cinema e profissionalismo, é o meu modelo. A sua generosidade e devoção são exemplos. O ego não se manifesta e falámos do filme numa forma de partilha muito generosa. Nunca senti qualquer pressão pelo facto dela ter uma carreira com mais de 30 anos e muitos sucessos, e eu estar perante a minha primeira realização no campo das longas-metragens. Sinto realmente que ela gostou do filme e, por isso, o nosso modo de colaboração foi exemplar. Normalmente, os meus filmes são difíceis de realizar, mas divirto-me muito a fazê-los. Aqui isso não aconteceu. Foi muito difícil. Ter alguém com ela junto a ti, sempre com boas energias, foi muito bom”.
De forma a não corromper a sua ideia original para o filme, Giacomo demorou cerca de dez anos a dar vida a este “Disco Boy”. Para isso, ele contou-nos que ser muito paciente foi essencial, pois podia ter cedido a alguns produtores e “despachar” o projeto em três anos: “Era um projeto muito caro para o primeiro filme de alguém e o elenco, embora excelente, não era suficientemente atraente para chamar mais público que o do cinema de arte. A parte mais difícil foi ter muita paciência, não comprometer a ideia original e com isso a alma do filme.”

Admitindo que quis ter Franz Rogowski no protagonismo, praticamente desde o início do projeto, isto depois de o ter visto em “Victoria” e “Happy End” . Giacomo afirma que foi o tipo de corpo do ator germânico que o fascinou, pois nele, Rogowski parece carregar violência, energia e profundidade. “O seu corpo é como uma escultura. Gosto da sua postura”, explica.
Uma câmara térmica e um “olho” como ponte para o místico
Numa das cenas mais marcantes do filme, em que existe um combate entre dois soldados no filme, Giacomo e Hélène abdicaram do naturalismo que tínhamos visto até aí e optaram por expor um ato de violência sem uma estilização glorificante. A opção, arriscada, foi recorrer a câmaras térmicas, que nos dão imagens que inevitavelmente nos remetem à forma como a criatura alienígena criada por John McTiernan, “O Predador”, observa as suas presas. Giacomo explica a opção: “Se pensarmos como ambos estavam vestidos naquele rio, não queria uma cena de luta realista ao estilo Rambo. Estamos num filme de guerra e, claro, que eu não conseguia escapar da violência, mas não tenho interesse em mostrar isso de forma hiperrealista. Especialmente nos tempos que correm, em que vivemos uma era de pornografia de imagens da guerra. Preferi seguir uma via mais abstrata e levar o filme a outro nível, que antecede a chegada do místico. Se pensarmos bem, essa é a primeira dança que efetivamente vemos no filme. Quis usar uma câmara térmica, mas não num sentido de utilização estética sem significado. Existe um significado subjacente que nos leva dá uma nova dimensão para o filme, a qual contrasta com o início da fita, que é bem mais naturalista”.



Reconhecendo que é muito sensível à violência, o italiano confessa que, por exemplo, nunca irá filmar uma criança a morrer, nem que seja pela razão mais política de sempre. “Sim, abordo temas políticos, mas não quero confortar as pessoas pelos seus compromissos políticos. Gosto quando as crenças políticas que temos sejam postas em crise. Não gosto quando os cineastas usam vias fáceis, como a vitimização e a criação de empatias vazias. E não gosto disso, mesmo quando existe uma boa intenção e até concordo com as observações políticas em cena (…) Sou agnóstico, mas venho de uma família católica e respeito as crenças que existem no mundo. Acredito que o universo é mais do vemos e tocamos, mesmo que não tenhamos respostas sobre essas questões. A forma como o cinema pode abordar isso, esse místico, fascina-me”.
Outro elemento fascinante é um “olho” que faz a ligação entre duas partes do filme, criando uma conexão entre irmão e irmã, e do Aleksei que se transforma em Alex, e em tudo o que carrega do seu passado.

Um dos elementos mais espetaculares do filme é a banda sonora criada pelo DJ francês Vitalic (também conhecido por Pascal Arbez-Nicolas), que se imiscui pela evolução psicológica da personagem de Aleksei e na rota da exploração do trauma e visita ao místico






