Avelina Prat abre a sua “Quinta Portuguesa”

O filme estreia nos cinemas a 31 julho

Jurada na competição da prata da casa do Bafici, ou seja, da produção das curtas e longas metragens argentinas, a realizadora valenciana Avelina Prat assumiu uma condição anfíbia no Festival de Buenos Aires de 2025. Integrou um dos júris da 26ª edição do evento portenho ao mesmo tempo que concorre aos prémios da mostra internacional. A cineasta espanhola estava em concurso com “Una Quinta PortuguesaAtuações delicadas de Manolo Solo e Maria de Medeiros asseguram lirismo a esta narrativa de delicados enquadramentos da realizadora de “Vasil” (2022). A fotografia dionisíaca de Santiago Racaj aquece o clima deste enredo sobre recomeços. Nele, Fernando, um professor de geografia, caiu num abismo sentimental após o desaparecimento da mulher. Sem rumo na vida, ele assume uma nova identidade e passa a trabalhar como jardineiro numa vila portuguesa, onde faz uma amizade inesperada com o proprietário e entra em um mundo que não lhe pertence. Uma virada brusca ligada ao amor do seu passado pode alterar a harmonia que ensaia construir.

Na entrevista a seguir, Avelina explica ao C7nema como foi lidar com o idioma de Camões nos sets.  

A cineasta espanhola Avelina Prat

Na distância existencial (e geográfica) que existe entre o geógrafo Fernando e o jardineiro Manuel, reunidos no mesmo corpo, na mesma angústia, interpretados por Manolo Solo, que afetos, que verdades, que segredos aproximam essas duas entidades de um protagonista fraturado? O que há de “espanhol” nessas identidades performáticas construídas por Solo?

O geógrafo Fernando gosta de livros, mapas, ordem, rotina, de ter a sua vida sob controle. O jardineiro Manuel gosta de independência, tranquilidade, de não ter que responder a ninguém ou dar explicações. Ambos gostam de histórias. De alguma forma, ele passa de uma vida intelectual para uma vida terrena, para uma vida em que pode encontrar uma conexão com o seu ambiente, uma conexão que não tinha antes, e o que começa como uma fuga se torna uma busca. Essa nova vida fora do seu contexto habitual, na companhia de pessoas que o aceitam sem questionamentos, onde ele tem de colocar as mãos na terra, ajuda-o a curar sua ferida. Não sei se há um aspeto mais espanhol do que outro. Creio que a diferença de identidades é mais marcada pela vida na cidade do que pela vida em um ambiente rural.

O que significou lidar com a língua portuguesa nas filmagens?

Eu adoro a língua portuguesa, na sua sonoridade, nas suas formas de expressão com certas frases antigas. A língua em si, a gramática em si, evoca uma gentileza e uma polidez que outras línguas não têm. Foi muito fácil filmar porque a equipa portuguesa entendia bastante de espanhol e foi muito fácil trabalhar com eles. É mais fácil para os portugueses entenderem o Espanhol do que para os espanhóis entenderem o Português, por causa do sotaque. O Português brasileiro é mais fácil para nós entendermos do que o Português lusitano. Manolo Solo estudou Português com um professor nos meses que antecederam as filmagens, paraa personagem, e ele era muito bom nisso.

Como você usa o simbolismo (cinematográfico) de Maria Medeiros, como diva e cantora? Esse aspecto de Maria de Medeiros ajuda a moldar a sua personagem. Ela é uma mulher aposentada numa casa de fazenda, cuidando da lavoura, mas ao mesmo tempo deixa vestígios da vida passada: é uma mulher culta, cosmopolita e sofisticada.

Como um filme com uma produção híbrida, metade espanhola, metade portuguesa, absorve o melhor das duas filmografias?
Quando concebi o filme, não pensei nas diferenças entre os filmes feitos na Espanha e os feitos em Portugal. Interesso-me muito pelos filmes portugueses. Eles falam muito sobre o povo, o país… Não tentei imitar os costumes portugueses, mas tentei retratar a parte de Portugal de forma natural, para transmitir um modo de vida que pareceria crível para um português. Não queria que parecesse o retrato de uma estrangeira sobre um país que não é o seu.

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