Com início já na próxima terça-feira, 7 de março, a segunda edição do Outsiders – Ciclo de Cinema Independente Americano vai invadir o Cinema São Jorge, em Lisboa, com “uma nova vaga de filmes independentes americanos que permanecem inéditos nas nossas salas“.
Assim, e até 12 de março, serão apresentados 10 longas-metragens de realizadores independentes, desta vez sobre sob o filtro dos “filmes de género“,
Entre essas obras encontramos “The Lovers”, realizado por Azazel Jacobs, que vai servir de filme de abertura de um ciclo que termina com “Wild Nights with Emily”, de Madeleine Olnek. Pelo meio, temos várias pérolas indie, como o western “In a Valley of Violence” de Ti West, a ficção cientifica “Upstream Color” ou o noir “Gemini”.
Além dos filmes, o jovem realizador Jack Fessenden vai estar em Lisboa a apresentar “Foxhole” e a dar uma masterclass (How I Made Two Feature Films by Age 21) na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.
Estivemos à conversa com o programador Carlos Nogueira sobre esta segunda edição do certame organizado pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD).
Muitos realizadores dizem que é mais difícil fazer o segundo filme. No seu caso, como curador, presumo que não tenha sido mais difícil organizar este segundo ciclo?
Não foi mais difícil. Houve, porém, uma certa dificuldade na escolha, não dos filmes em si, mas do projeto. O primeiro ciclo Outsiders foi uma apresentação geral daquilo que se poderia considerar a vaga mais recente de cinema independente. O núcleo duro das escolhas foi o mumblecore e à volta disso tínhamos uma série de franjas. Ficou muita coisa de fora. Por isso, a dificuldade que surgiu agora foi: ou íamos repetir um pouco a coisa, com os filmes que ficaram de fora dos mesmos realizadores, ou, sem pensar na eventualidade de uma terceira ou quarta edição do ciclo Outsiders, não repetirmos os realizadores e passar para um novo grupo de filmes e cineastas, dando de alguma forma coerência às nossas escolhas.
A verdade é que parti dos filmes para aquilo que acabou por ser a nossa opção final: cada filme escolhido representa , mais ou menos, um género. Embora existam muitas coisas em comum entre a primeira e a segunda edição, pois no fundo os filmes saíram da mesma fornada, na primeira havia um corte em relação ao cinema tradicional e às vagas anteriores de cinema independente. Nesta edição tentei encontrar pontes. Pontes essas, sobretudo, em relação ao cinema clássico.
Falando de escolhas, este ano foi eleito o Jack Fessenden como convidado para dar uma masterclass durante o ciclo [Na faculdade de Belas Artes, dia 10]. Como se processou essa escolha? Foi a partir dos seus filmes?
Vi as duas longas-metragens que ele tem e uma curta [The Adults] que me pareceu muito interessante. Na verdade, a ideia à partida era convidar o pai, Larry Fessenden. Depois pensei que seria interessante virem os dois, pai e filho. Durante algum tempo esteve isso em cima da mesa. O Larry aceitou, mas precisava confirmar uns compromissos que tinha. Acabou por não poder vir, pois tem um filme – como ator – para apresentar no SXSW.
Não ficamos muito longe do objetivo. No ano passado, no MoMA, houve uma grande retrospetiva em torno da produtora dos Fessenden, a Glass Eye Pix. Queria insistir um pouco neste cinema e acabou por vir apenas o Jack.
Vi ontem o “Foxhole” e fiquei agradavelmente impressionado…
É alguém muito interessante. O primeiro filme dele, que fez aos 16 anos, o “Stray Bullets”, tem algumas fragilidades, mas nota-se ali qualquer coisa. Quando se faz um filme assim aos 16 anos, nota-se que ele vai longe. O “Foxhole” pareceu-me ultra interessante. Não é um filme propriamente revolucionário e a sua abordagem à guerra tem muita coisa que já foi vista. Mas é muito interessante na forma como ele aproveita os parcos meios que tem à disposição para fazer um filme de época, aproveitando o mesmo naipe de atores. Não sei em que fase é que está, mas ele tem um terceiro filme na calha.
Por isso, achei que ele era muito interessante como escolha depois de termos tido o Joe Swanberg na edição passada, ou seja, alguém que está no outro extremo da carreira. Neste caso, temos alguém no início da sua carreira que vai dar uma masterclass num auditório a pessoas da mesma idade
E este formato de mostra, onde não se olha muito aos anos de produção dos filmes, é para continuar?
Desde o início, este projeto tem uma liberdade muito grande. Não há um formato rígido. A única ideia que temos, em termos de FLAD, é que não substituímos a exibição comercial, nem somos a Cinemateca. Tendo estes dois princípios de base, a liberdade é muito grande. Poderá ser, no futuro, como é agora, ou seja, termos um leque muito grande de temas, filmes e realizadores, ou concentrarmo-nos apenas em um ou dois realizadores.
Na primeira edição fiz uma sessão com várias curtas-metragens dos irmãos Safdie, o que não exclui, numa próxima edição do Outsiders – que não está garantida -, que não centremos a atenção num realizador. Ou que exista um foco. Tudo isto são opções em aberto.
E depois de Lisboa, o Outsiders vai entrar em tournée pelo país?
Não, este ano não. Tentámos, mas era muito complicado. No ano passado estivemos na Ilha Terceira. Agora tentou-se fazer em São Miguel (Ponta Delgada), mas não foi possível chegar a acordo com a sala. No continente, tentou-se Porto e Braga, mas também não foi possível. Não é fácil as pessoas de Lisboa programarem fora de Lisboa. Por isso, acabámos por avançar apenas para Lisboa.
Se tivesse de escolher uma sessão que as pessoas não podem perder, de todas as sessões deste ciclo, qual seria?
Essa é aquela pergunta complicada de responder, mas no Sábado há duas sessões que me parecem muito interessantes. A sessão da tarde [19.00] é com um filme que foi Grande Prémio no SXSW em 2015: o “Krisha”. A outra sessão seria a do “Gemini”, pois é um filme que tenho uma curiosidade imensa de o ver no ecrã gigante do Cinema São Jorge. Visualmente é um filme muito impactante. E digamos que é o representante do filme noir nesta seleção. É, de facto, um filme que acho muito interessante e conta com a Lola Kirke e Zoë Kravitz no elenco. Claro que digo isto correndo o risco de estar a trair alguns dos outros filmes do programa.
PROGRAMA OUTSIDERS 2023
7 março, terça-feira
21h30: THE LOVERS, Azazel Jacobs, 2017, 97 – sessão de abertura
8 março, quarta-feira
19h00: UPSTREAM COLOR, Shane Carruth, 2013, 96′
21h30: MADELINE’S MADELINE, Josephine Decker, 2018, 93′
9 março, quinta-feira
19h00: TRANSPECOS, Greg Kwedar, 2016, 86′
21h30: DEPRAVED, Larry Fessenden, 2019, 114′
10 março, sexta-feira
19h00: FOXHOLE, Jack Fessenden, 2021, 95′
21h30: IN A VALLEY OF VIOLENCE, Ti West, 2016, 104′
11 março, sábado
19h00: KRISHA, Trey Edward Shults, 2015, 83′
21h30: GEMINI, Aaron Katz, 2017, 93′
12 março, domingo
19h00: WILD NIGHTS WITH EMILY, Madeleine Olnek 2018, 84′ – sessão de encerramento
How I Made Two Feature Films by Age 21 — Masterclass de Jack Fessenden – entrada livre
8 março, quarta-feira, 17h
Grande Auditório da Faculdade de Belas Artes (Lisboa)


