A decorrer em Lille desde o passado dia 18 de março, o Series Mania já tem alguns projetos que se destacaram. Aqui fica um primeiro olhar sobre quatro delas:
Le Monde Demain (competição internacional)

Já com uma carreira considerável no cinema francês, a dupla Katell Quillévéré (Cuidar dos Vivos) e Hélier Cisterne (De nos frères blessés) embarca na aventura televisiva cheio ritmo e poesia para nos contar uma história que Audrey Estrougo mostrou recentemente com o seu “Suprêmes”, ou seja, o nascimento da banda NTM e com isso falar das origens do hip hop gaulês.
É assim pelo destino dos jovens Kool Shen, JoeyStarr e DJ S, futuros líderes do grupo NTM, de Dee Nasty, pioneiro do rap e DJ, e Lady V, dançarina e grafiteira, que “Le Monde de Demain” nos faz viajar aos anos 80 e uma sociedade prestes a ser abalroada por uma verdadeira revolução cultural.
Mas ao mirar para um movimento coletivo de novas formas de arte, do rap ao graffiti, passando pelo breakdance, junta-se um outro olhar, mais pessoal e íntimo, da transição para a vida adulta de jovens dos subúrbios de Paris (Seine-Saint-Denis em foco), que assumem um lugar numa sociedade francesa reinventada à sua imagem.
Nos dois episódios que vimos no SerieMania, o centro das atenções está nos jovens Bruno Lopes (que mais tarde ficaria conhecido como Kool Shen) e Didier Morville (que assumirá o nome de palco Joey Starr).
Anthony Bajon (Lá prière) é quem assume o papel de descendente de um pai bretão e mãe portuguesa. Gozado pela sua baixa estatura, mas fascinado pelos beats e a dança, Lopes terá de convencer o pai a não seguir para fora de Paris para jogar futebol. Já Didier, interpretado por Melvin Boomer, lida diariamente com a violência paterna, mostrando a dureza e agressividade das suas raízes.
Quezílias, pequenos roubos, convites obscuros e muitas outras peripécias enchem este trabalho com um fascínio ímpar, especialmente para quem acompanhou os momentos pioneiros do rap gaulês.
Il Re (competição internacional)

Bem conhecido do público pelo papel principal em “O Comissário Montalbano“, o ator italiano Luca Zingaretti dá uma volta de 180º graus à sua persona televisiva e assume um papel profundamente distinto em “Il Re” (O Rei).
Que nem um Rei e senhor absoluto, Bruno Testori dirige a prisão de San Michele com pulso de ferro, fazendo daquele espaço um local de regras muito próprias e morais distorcidas. O seu poder e domínio é ameaçado quando duas mortes acontecem no lugar, levando à chegada de uma nova equipa de investigadores que ameaça a sua regência.
Sombrio, claustrofóbico e passando pelos caminhos obscuros das forças policiais e dos seus acordos secretos, “Il Re” invariavelmente leva-nos a um “Oz” contemporâneo, onde a linha entre lei e crime cada vez se confundem mais. E quando os assassinatos ocorridos dentro da cadeia podem ter várias ramificações fora dela, as coisas ainda se tornam mais complexas para Testori, que tudo fará para manter a sua força e poder.
Sentineles (competição internacional)

Iniciada em 2012, a guerra civil no Mali é abordada pela primeira vez na televisão gaulesa através de “Sentinelles”, projeto criado por Frédéric Krivine (Un Village français) e Thibault Valetoux (Totems) que conta a história de uma missão de uma unidade francesa no estado africano.
Além de lidar com sequências de ação de guerra trabalhadas com primor, “Sentinelles” entra ainda na análise psicológica de jovens recrutas confrontados com a dureza do ter de lidar, olhos nos olhos, e diariamente, com a morte.
Sentimento de culpa, a presença de drogas, e até relacionamentos conturbados, que ameaçam a coesão de grupo, são apenas alguns dos temas abrangidos com mais ou menos cuidado, sempre numa viagem ao inferno pessoal de cada um dos soldados e da unidade, além de um olhar complexo às relações geopolíticas na região e que podem levar à criação de um califado no Sahel.
Sindrome E (competição francesa)

Na nova vaga explosiva de thrillers policiais no universo literário, Franck Thilliez é um dos mais destacados por França, um nome que saltou com maior intensidade para o universo da TV depois de agir como criador de “Alex Hugo“.
História, ciência, psicologia, neurologia e até uns pozinhos que contornam o sobrenatural, tudo parece ter espaço em Síndrome E, nova série de televisão adaptada do livro homónimo de Thilliez e que acompanha as aventuras da dupla de investigação Franck Sharko-Lucie Hennebelle.
Pese os esforços e carisma de Vincent Elbaz e Jennifer Decker no protagonismo, e uma atmosfera sombria e envolvente, a série adaptada por Mathieu Missoffe (Zone blanche) e filmada por Laure de Butler (La Promesse) abusa dos clichês estéticos do género, especialmente quando entra em territórios que vão de “Seven” a “Ringu”, onde até temos um filme da década de 1960 que provoca um comportamento estranho e perigoso em quem o assiste.
A hemolacria que a primeira vítima do filme padece, que por sua vez mata a sangue frio um colega, acrescenta uma dose forte de dúvida, mas no final dos dois episódios a que tivemos acesso, tudo soa a um daqueles subprodutos que enchem as televisões e plataformas a toda a hora.

