Numerosos cineastas europeus já criticaram o sérvio Emir Kusturica com a alegação de que ele se apropriou da cultura cigana, sem ser o seu “lugar de fala” (uma das expressões de maior controvérsia do presente), e carnavalizou a sua representação. Um dos filmes em que ele foi acusado disso foi “Gato Preto, Gato Branco” (1998), pelo qual ele recebeu o prémio de melhor realização em Veneza. Esta semana, o circuito português recebe uma versão 4K da longa-metragem.
Adaptada de um romance dos anos 30, da autoria do escritor russo Isaac Babel, o filme conta a história de um grupo de ciganos que habitam à beira do Danúbio. Matko, o Cigano, vive de pequenos negócios escuros com os russos. O seu primeiro grande trabalho é desviar um comboio que transporta gasolina de Belgrado com destino à Turquia. Para conseguir montar a operação, pede dinheiro a Dadan, o padrinho da comunidade, que vive rodeado por um harém. Mas o assalto corre mal e agora Matko não tem dinheiro para pagar a Dadan. A solução é aceitar o casamento entre o seu filho Zare e a intratável irmã do padrinho. Mas Zare está apaixonado por Ida, uma jovem cigana que tem por passatempo disparar sobre as embarcações das pessoas que vivem à beira do rio.
Ao longo dos últimos cinco anos, o C7 encontrou Kusturica quatros vezes, das quais selecionamos três questões.
De que maneira a safra de narrativas quase fabulares da sua obra, feitas nos anos 1980 e 90, reflete a visão política abrasiva que passou a expressar mais na forma documental, nas últimas duas décadas?
A minha cabeça foi muito influenciada pela Nova Hollywood, num período dos anos 1970 em que os filmes inquietos davam receitas nas bilheteiras, sem fazer concessões para agradar. E a minha cabeça também foi influenciada pelo vodca. A influência cinematográfica fez-me pensar que cada filme que faço deve ser uma resposta ao mundo ao meu redor. Vivo num ambiente complexo, de turbulências, e é desse turbilhão que posso falar. Neste tempo em que vivemos, há porcos, gansos, cabras e galinhas onde vivo. Logo, eles são parte essencial do que preciso levar aos cinemas. Filmo à procura de dialogar com as plateias. Nem sempre é fácil. Estamos cercados de perigos.
Correr perigos assusta-o?
Assusto-me com a inércia, mas a arte é capaz de dissolvê-la. A Europa está doida hoje, sem bússola. Mas a Arte ainda pode afetar o Real, e as pessoas, abrindo novos pontos de vista sobre os factos, num convite ao que ainda podemos chamar de democracia.
Que espaço existe para a fábula e para o realismo mágico hoje?
Prefiro olhar para isso que classifica como fantasia de poesia. E o maior problema do cinema contemporâneo é que ele fica cada vez menos poético a cada filme. O cinema quer ser explícito e direto, sem resguardar a importância da sugestão, da insinuação. Com isso, ele se empobrece na perda de simbolismos. Eu ainda aprecio o valor das metáforas. Sou um sujeito que ouve Nino Rota, o compositor das bandas-sonoras do Fellini, ao mesmo tempo que gosto do Lou Reed e The Clash. Gosto de misturas autorais. Mas estou atento para o facto de a minha banda, a Non Smoking Orchestra, ter passado anos com apenas um CD gravado.

