Thierry Frémaux e a missão de devolver os Lumière ao público. Entrevista.

"Lumière, a Aventura Continua!" estreia a 2 de outubro

“Um filme Lumière, de um plano só, é verdade pura. Sem manipulação, sem inteligência artificial, apenas o mundo diante da câmara”.

Paris, 20 de janeiro de 2025. Enquanto uns raios de sol atenuam, nas ruas da capital francesa, o inverno rigoroso, dentro do Sofitel Arc de Triomphe, epicentro do evento Unifrance Rendez-Vous in Paris 2025, a correria de entrevista para entrevista e de quarto para quarto vai aquecendo os jornalistas.

Num deles, pelas 10h00, somos recebidos com um “Ei, conheço-te!”. Esse alguém que está prestes a ser entrevistado é Thierry Frémaux, diretor do Institut Lumière e do Festival de Cannes, alguém com quem nos “cruzámos” dezenas de vezes numa mão cheia de edições durante os 12 dias de duração do certame. E há também sempre aquele momento em que, antes de partir para a apresentação dos filmes a serem exibidos à sala, Frémaux questiona – em jeito de piada – quem é que da audiência já viu quatro ou cinco filmes naquele dia. Ora timidamente, para esconder as olheiras, ora efusivamente, para mostrar que está pronto para mais, há sempre alguém que levanta o braço. Mea culpa várias vezes…

Embora o Festival de Cannes seja um tema inevitável na nossa conversa, a razão do encontro era outra: uma conversa sobre Lumière, a Aventura Continua! (2024), novo documentário concebido e narrado por Frémaux, que aprofunda de forma mais detalhada e contextualizada a história da invenção do cinema. Dando seguimento a Lumière! A Aventura Começa – filme que abriu a Festa do Cinema Francês em 2017 –, este novo capítulo foi construído a partir de 108 das mais de 1400 obras dos Lumière. Nessas imagens, todas restauradas em 4K, revelam-se já gestos pioneiros do Cinema: a mise-en-scène, os travellings, os efeitos especiais e muito mais.

Entre a preservação do legado dos Lumière, a herança do Cinema e a defesa do seu futuro, Thierry Frémaux falou-nos de Lumière, a Aventura Continua!, da resistência das salas após a pandemia, da vitalidade dos grandes autores e da necessidade de sucessos populares. E, claro, de Cannes e da importância dos festivais para a 7ª arte. Aqui fica a conversa…

Lumière, a Aventura Continua!

Lumière, a Aventura Continua! Quantas aventuras ainda podemos esperar?

Temos ainda muitas curtas para mostrar. Se considerarmos a lista oficial de cerca de 1500 filmes, mais 500 não oficiais, mas dentro da produção linear, no final temos cerca de 2000 filmagens. Portanto, se usar 100 curtas por filme, podemos fazer uns 15-20 filmes.

Na sua abordagem, o que distingue o ‘Lumière, a Aventura Continua!’ de ‘Lumière! A Aventura Começa’ ?

Não quis repetir o primeiro com o “olha isto, olha aquilo”. Este é diferente porque estamos em 2025, um ano de celebração. Quis chamá-lo Lumière, le cinéma, mas o distribuidor francês preferiu ‘Lumière! A Aventura Começa’ e ‘Lumière, a Aventura Continua!’. No fundo, não é apenas Lumière, mas sim o Cinema, a aventura continua. Estamos na terceira década do século XXI: o Cinema continua vivo, ainda que ferido pela Covid, pela internet e por muitas outras coisas. O final do filme é mais filosófico, sobre o que é o Cinema e como o Cinema fez de nós o que somos.

Sente que houve uma espécie de renascimento do Cinema depois da Covid?

Sim. Em França já temos quase o mesmo número de espectadores e receitas que antes da pandemia. Falo muito disso com o Quentin Tarantino. Talvez eu seja demasiado otimista, sou francês… Aqui o Cinema é tradição, mas também luta diária: do público, da imprensa, do Ministério da Cultura, dos exibidores, dos distribuidores. Todos lutamos. Isso dá ao Cinema francês uma certa força – mas também acontece noutros países, como a Polónia.

Mas durante a pandemia ouviu-se muito falar na “morte do Cinema”.

Sim, foi a primeira vez na história que as salas fecharam. Nem nas duas guerras mundiais aconteceu. Mas acreditámos no Cinema, no amor ao Cinema. Claro que temos de conquistar as novas gerações.

Lumière, a Aventura Continua!

E quando morrem grandes cineastas como David Lynch, como fica o Cinema?

É uma perda enorme, claro. Mas continuo otimista: o Cinema será sempre salvo pelos filmes e pelas artistas. Veja-se o Cinema americano: sofreu com a Covid, as greves, até incêndios em Los Angeles. Mas quando aparecem Oppenheimer (2023), Barbie (2023), John Wick (2014), o público volta. Aprendemos que precisamos tanto das propostas artísticas como dos grandes filmes populares. Christopher Nolan fez de Batman um filme de autor. O mesmo com The Substance (2024) em Cannes: parecia um filme de género, mas a Coralie Fargeat fez uma obra de artista. Eu quis pô-lo em competição, não apenas na sessão da meia-noite. E resultou: sucesso de público, prémios, até um Globo de Ouro. O Cinema será salvo pela indústria, pelas artistas e pelo público – como no início.

O sucesso do seu primeiro filme sobre os irmãos Lumière mostrou que o público tem interesse no passado do Cinema?

Sim. Um filme Lumière, de um plano só, é verdade pura. Sem manipulação, sem inteligência artificial, apenas o mundo diante da câmara. O projeto do Institut Lumière é devolver esses filmes ao público. Desde 1905 que eles não voltavam às salas, só aos arquivos. Agora restauramos como se restaura um quadro ou um romance. E brevemente lançamos uma plataforma com os filmes dos Lumière – sem a minha voz, apenas as imagens.

Trabalhar com esse material não lhe traz nostalgia?

Pelo contrário. Sinto-me moderno. A tecnologia digital permite restaurar e projetar coisas que antes eram impossíveis, como os filmes em 75 mm, cuja luz queimava o negativo. Agora conseguimos mostrá-los. E até inclui um “mau filme” dos Lumière – para mostrar que nem tudo era genial. Tal como hoje, há obras que no momento parecem banais e depois se revelam grandes.

Qual é a sua visão para o Festival de Cannes nos próximos cinco anos?

Não sei se tenho uma “visão”. O festival é feito pelo que o Cinema é: artistas, indústria, público, imprensa. Durante a Covid recusámos fazer um festival digital. Um festival é festa, é estar juntos. Se não for assim, mais vale cancelar e esperar pelo ano seguinte. Cannes, Berlim, Veneza, Sundance, Londres, Varsóvia – precisamos que todos sejam fortes.

Lumière, a Aventura Continua!

Alguns festivais americanos, como Tribeca ou Sundance, estão a expandir-se para a Europa. Como olha para este ato de franchise dos festivais? Simultaneamente, nota-se que os filmes e as estrelas americanas já não vêm tanto a festivais como Cannes, como no passado. Como diretor do Festival de Cannes, como olha para isso?

Há uma nova geração de produtores e distribuidores americanos sem a mesma cultura dos anos 1960, quando Cannes e Veneza legitimaram o Cinema de autor. Hoje o peso do dinheiro é maior. Por vezes recusam mostrar-nos filmes porque querem lançá-los diretamente nos EUA. Mas continuo a receber muitas propostas da América. A última Palma de Ouro (2024) foi para Anora, de Sean Baker, um cineasta independente. E vemos talentos cada vez mais cedo. O problema é a pressão das plataformas, campanhas para prémios – é uma luta. Mas estamos cá.

Em que filme gostaria de atuar? E a quem diria “não”?

Nem gosto da minha voz, imagine representar… Só aceitaria se fosse num filme de um amigo. O David Lynch uma vez disse que queria fazer algo comigo – mas não é a minha ambição.

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