Benjamin Voisin: “O Estrangeiro foi de longe o filme em que mais senti na minha vida”

Aos 29 anos, Benjamin Voisin é um dos atores mais requisitados da sua geração. Muito se  fala dele para dar vida ao famoso Johnny Hallyday numa cinebiografia consagrada ao cantor, mas antes disso, o rapaz que brilhou pela primeira vez em Verão 85, de François Ozon, e depois em Ilusões Perdidas, de Xavier Giannoli, pode ser visto nas nossas salas em O Estrangeiro, uma adaptação do clássico de Albert Camus.

Interpretando a mítica personagem de Meursault, novamente sob o comando de Ozon, Voisin sabia que isso implicava criar um choque pela ausência, um corpo atravessado pela luz, pelo calor e por uma espécie de silêncio interior que não é, de qualquer maneira, um vazio, mas antes uma suspensão. “Foi de longe o filme em que mais senti na minha vida”, afirmou Voisin ao C7nema, em Paris, contrariando qualquer leitura superficial de termos pela frente alguém que “não sente nada”.

O Estrangeiro

A preto e branco — ainda que nunca soubesse como seria a fotografia do filme durante as rodagens — , o sol, a luz intensa, direta, sem difusão, que atingia-o nos olhos e quase o cegava, provocou um desconforto tal que se tornou a chave para a sua interpretação. O seu grande objetivo era não interpretar e Ozon pediu-lhe precisamente isso: que não interagisse com os outros atores, que não reagisse. “Eu sou um ator que parte do outro. A verdade está no ‘hum hum’, na resposta à frase do outro”, diz-nos, acrescentando que, em várias cenas, não ouviu realmente quem contracenava consigo. “Adorei todos os atores que estavam à minha frente, mas nunca os ouvi uma única vez.” Mesmo perante Denis Lavant, que adora, teve de resistir ao impulso de escuta: “Dá vontade de ouvir tudo. Foi muito difícil resistir.”

Essa contenção foi preparada ao longo de meses, destacando-se a busca de Voisin não no eliminar a fala, mas a vontade de falar. “Há estar calado e não ter vontade de falar. Trabalhei quatro meses para já nem ter vontade.” Descrevendo-se como sociável e expansivo, o francês criou novos hábitos que incluíram mais silêncio, mais observação e menos reação. “No hotel, em Marrocos, podia ficar cinco horas a olhar para o teto.” E isto não era um método performativo exibicionista, mas a criação de um estado interior: “Não é ficar na personagem. É ficar numa nova emoção até ela se tornar mais natural do que a minha.”

Por isso mesmo, o isolamento fez parte dessa estratégia. “O cinema é coletivo, passa-se o dia a trabalhar e à noite vai-se beber copos. Não queria isso.” Ao invés,  ele optou por aproximar-se de pessoas locais que não sabiam quem ele era: “Aceitavam-me, acreditavam em Meursault, mesmo sem falar.

A aparente neutralidade da sua personagem contrasta com a intensidade do olhar que procurou construir, citando duas referências que o acompanharam: o filósofo Paul Valéry — “Nada é mais belo do que aquilo que não existe” — e Robert Bresson, numa frase transmitida por Ozon: “O olho deve ser ejaculador.” 

Benjamin Voisin e Rebecca Marder em O Estrangeiro

A sua recusa pelos ornamentos aproxima-se da relação de Meursault com a verdade. “Ele não sabe mentir. Nem tem vontade. Não compreende para quê.” Voisin, pelo contrário, confessa que “adora mentir”, mencionando pequenas invenções em conversas de bar, histórias criadas para provocar um momento intenso. “Um bom momento é tudo o que há de mais bonito na vida. Isso basta para justificar a mentira.” Outra paixão são os desafios, como o que encontrou aqui pela frente e em Jouer avec le feu, onde interpretava o papel de um jovem que cai nas malhas da extrema-direita em França- “Faço o filme se humanizarmos. Se for apenas para ser um “facho mau”, então não me interessa. É preciso compreender, não apenas insultar“, explica. “Não quero que a minha busca seja provar que sou bom ator — isso seria puro narcisismo. Quero fazer obras que emocionem e façam pensar. O mundo precisa de imaginação e poesia.

Com uma interpretação que não procura qualquer empatia fácil, mas que exige que o espectador permaneça e tente entender o que está por trás de si, Voisin, num gesto austero, apresenta uma das leituras mais inquietantes e contemporâneas de Meursault.

O Estrangeiro chega aos cinemas nacionais a 12 de março.

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