Compositor de Tocando em Frente, ao lado de Almir Sater, tema que abre Vicentina Pede Desculpas, o poeta de um Brasil “de dentro, para dentro” chamado Renato Teixeira escreveu noutro momento um verso que define com perfeição o filme mineiro em disputa pela Concha de Ouro de San Sebastián: “a calma é irmã do simples / e o simples resolve tudo”. O trecho pertence a Irmãos da Lua e reflete a essência dramatúrgica da nova longa-metragem do realizador de Marte Um (2022), Gabriel Martins.

A sua matéria é o luto, um tema que deu ao cinema joias como La stanza del figlio (2001), Palma de Ouro de Nanni Moretti, e J’enrage de ton absence (2012), de Sandrine Bonnaire. A forma como Gabito, apelido de Gabriel, trata do fim esbarra no peso trágico da finitude ao colocar um acidente no centro da sua lógica social. Com uma artesania meticulosa na esgrima do argumento — e dos enquadramentos —, a sua forma de narrar acolchoa os planos e dilui a dimensão de tragédia ao optar por uma banda sonora de redenção e volta por cima.

Rejane Faria encontra no corpo de Vicentina uma partitura de contenção rara. A atriz faz da bengala, dos passos difíceis, das pausas e, sobretudo, do olhar instrumentos de uma dramaturgia que dispensa a ênfase para alcançar o abismo. Gabriel Martins filma essa mulher septuagenária em deslocamento com uma delicadeza que encontra na fotografia de Leonardo Feliciano uma aliada decisiva: Minas Gerais deixa de ser paisagem para se converter em extensão afetiva da personagem. É uma câmara que observa o luto sem o empurrar para o melodrama, preferindo a respiração dos espaços e a duração dos rostos.

Há, porém, uma aresta luminosa nessa procissão de dores, e ela atende pelo nome de Maíra Azevedo. Como Joana, a atriz traz uma linha arejada de interpretação, capaz de salpicar comicidade no tecido doído do filme sem jamais romper a sua tonalidade. O seu humor não funciona como alívio externo à narrativa, mas como uma forma de resistência à tristeza, uma fresta de ar que impede que o luto se torne uma experiência monocromática. Ao lado dela, Grace Passô e Giovanni Venturini ampliam a espessura humana de uma história construída sobre encontros e culpa, atravessada pela necessidade de continuar a viver depois da catástrofe.

Vicentina Pede Desculpas é, assim, um filme sobre a delicadeza possível depois do desastre. Gabriel Martins compreende que certas feridas não saram nem cicatrizam. Apenas abrem veios doloridos que se atravessam. Perante elas, talvez o cinema possa oferecer não uma resposta, mas companhia para essa travessia. Rejane Faria carrega essa procura no corpo, enquanto Leonardo Feliciano encontra na paisagem mineira o espaço necessário para que a dor respire. Gabriel Martins fala sobre a morte olhando para aquilo que ainda resta: os outros e a possibilidade de perdão.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/9boq
Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
vicentina-pede-desculpas-crepusculo-aberto-a-suavidadeVicentina Pede Desculpas é, assim, um filme sobre a delicadeza possível depois do desastre.