Quando Denise Fernandes, nascida em Portugal em 1990, mas criada no sul da Suíça, terminou os estudos de cinema, sentiu na pele o calafrio que muitos realizadores sentem: como transformar o seu conhecimento numa profissão? A verdade é que anos depois de iniciar o seu percurso, que envolveram estudos em Cuba e a passagem por uma produtora francesa, a jovem passou e foi premiada no Festival de Locarno, na competição Cineasti del Presente, com a sua primeira longa-metragem, “Hanami”, que estreia nas nossas salas a 15 de maio.
No filme, em plena Ilha do Fogo, acompanhamos a história de uma menina desde a barriga da mãe à adolescência, mostrando as suas “dores de crescimento”, que incluem a ida dos seus conhecidos para outras paragens – tal qual aconteceu com a sua mãe, que há muito partiu para o estrangeiro.
Com ascendência cabo-verdiana, Denise Fernandes situa em 2014 o início da construção desta obra que deixou a cidade do cantão de Ticino fascinada. “Já tinha feito algumas curtas, mas nunca tinha explorado a minha relação com Cabo Verde”, disse-nos numa entrevista no decurso do festival. “Comecei a escrever a partir do que conhecia. Nasci em Lisboa, cresci na Suíça. Comecei a recolher tudo o que sabia de Cabo Verde, a partir das minhas próprias experiências.”
Reconhecendo que o seu ponto de partida para uma das mais entusiastas obras vislumbradas em Locarno este ano foi a falta de chuva em Cabo Verde, que foi ouvindo ao longo da vida em poemas, canções e conversas de familiares, Denise faz uma ligação direta dessa questão à emigração da população do território, surgindo em paralelo diversas questões sobre identidade, tema que já tinha abordado em “Nha Mila”, curta-metragem lançada em 2020, no meio da pandemia. “A seca e a emigração são questões muito complexas, mas foram o meu ponto de partida. Queria refletir quanto essa natureza árida leva as pessoas a emigrar. Por outro lado, cresci num Ocidente que definia e apresentava África como um lugar muito diferente, onde os países não tinham nada em comum com os deles. Isto, para mim, cria uma separação da humanidade. E este separar desumaniza.”


Por isso mesmo, em “Hanami” encontramos uma conexão entre Cabo Verde e o Japão, com o nome de Mizoguchi ao barulho. “Foi uma intuição que tive desde o início e que não quis censurar. Tive medo, mas os medos podem ser positivos (…) queria juntar o que parece distante”, dispara, lembrando que, quando se tem uma paisagem como a Ilha do Fogo para filmar, “não há limites para a criatividade”: “Queria filmar a ilha longe da imagem de cartão-postal, longe do olhar dominante que acaba por invisibilizar”.
Já sobre a questão da identidade, tema presente na sua cinematografia, a jovem explica: “Nos meus primeiros trabalhos, essa questão da identidade nunca foi fundamental, mas progressivamente tornou-se algo inevitável. Creio que esse tema diz muito a toda a gente, não apenas aos artistas. No meu caso, quis abordar o tema da identidade de ângulos diferentes e com personagens diferentes. Desde o início sabia que queria multiplicar os olhares em relação à ilha e diferentes experiências das pessoas com ela. As pessoas que ficam, as que sonham em partir, as que regressam. Era importante dar complexidade ao que é complexo”.
Ainda sobre o tema da emigração, Denise procurou corrigir uma injustiça, como nos conta: “Muitas vezes vê-se o migrante, especialmente a nível político, como alguém que sonha em sair do seu país e apenas quer encontrar uma vida melhor fora dele. Mas nunca se fala do migrante que gostaria de ficar no seus país com a família, com a sua comunidade e natureza. Acho muito injusta a narrativa do dominante, na qual somos incapazes de ver o que o migrante gostaria de ficar no seu país. O meu filme acompanha a vida de uma menina desde que está na barriga da mãe até ser adolescente para perceber as escolhas e decisões que irá tomar”.

Agradecimentos especiais
A maioria dos espectadores abandona as salas de cinema no momento em que começam os créditos finais a passar. Porém, desta vez, ficámos até ao fim. Na lista de agradecimentos da cineasta encontramos o nome da grega Athina Rachel Tsangari e do norte-americano Willem Dafoe. Intrigado, tive que questionar Denise sobre o tema. A sua resposta foi esclarecedora: “Em 2020 fui selecionada para uma residência de escrita na Grécia. Infelizmente, nesse ano, realizou-se à distância. Essa residência foi fundada pela Athina e por outro cineasta grego e conta com inúmeras pessoas que nos ajudam. Ora, o meu “padrinho” nesta residência foi o Willem Dafoe. Tive duas sessões com a Athina e duas com o Dafoe. Primeiro eles liam o argumento e davam-me sugestões. Depois, 4 meses passaram, e tive uma nova sessão com os dois. Sentir que o guião era bem recebido por eles foi uma forma de me tranquilizar e sentir que o filme podia ser acessível a pessoas diferentes.”






