Enquadrado na fronteira entre a farsa e a lenda urbana, o Cronovisor é (supostamente) uma engenhoca inventada na década de 1970, graças ao empenho do padre beneditino Pellegrino Ernetti (1925-1994), que daria aos seus operadores a habilidade de fazer uma “fotografia” de um tempo passado. O uso da batina do seu inventor já sugere que o pretérito “fotografado” por tal máquina teria sido o momento da Paixão, ou seja, a crucificação de Jesus. Ao lado dessa sanha retratista, nota-se uma prática nada cristã: ao revirar épocas que ficaram para trás, o tal religioso estaria atrás de um contacto com mortos. O Vaticano, diante dessa hipótese, fez ameaças de excomungar quem quer que brincasse com as imagens de Cristo. Há quem diga que tudo foi um delírio de Ernetti, que fez fama na música, com o canto gregoriano. Por via das dúvidas, o cinema americano — na sua ala mais indie — fez um filme… de terror… a fim de notabilizar esse caso.
Em cartaz na Mostra de São Paulo, a versão de Jack Auen e Kevin Walker para essa especulação é uma aula de terror. E também de economia. Estima-se que a dupla de realizadores, ligada ao coletivo Cosmic Salon, investiu 55 mil dólares para tirar do papel um modo de narrar onde palavras, em diferentes línguas, levam plateias a uma jornada pela loucura. O Festival de Roterdão foi uma das vitrinas deste engenhoso thriller.
Na trama explorada nos 99 minutos de Chronovisor, a filósofa Béatrice Courte (um papel confiado à atriz Anne Laure Sellier), ligada à Universidade de Columbia, vasculha os diferentes documentos e relatos de jornal (todos reais) sobre Ernetti para entender o que ele fez no desespero para servir o Altíssimo. A partir de uma fotografia em 16 mm feita por Leo Zhang, os cineastas vasculham toda a sorte de excentricidade por trás daquele relato, bem calçados numa luz bruxuleante. Os cenários mais recorrentes são bibliotecas e gabinetes, o que dá um tom claustrofóbico à longa-metragem.
Por vezes, Béatrice fala ao telefone com pessoas que sabem de Ernetti e acaba por se perder no desejo de provas de que o Cronovisor existe e foi escondido pela Igreja. A cada passo, a sua alma deixa-se dragar por esse mistério, num trânsito que a leva a Portugal, em busca de um físico do Algarve. Esse trecho luso aproxima o terror de Auen e Walker do esquecido The Ninth Gate (1999), de Roman Polanski, a trilhar um eixo igualmente diabólico. Até lá, usa-se um dispositivo de documentário em nome do fantástico, num indício cinéfilo de invenção.




















